Copa do Mundo 2026 – Antes do êxtase, algumas reflexões necessárias!

A poucos dias do início da Copa do Mundo de 2026, o contagiante clima que o mundial de seleções proporciona já nós tomou por completo. Mas antes do êxtase, é necessário que algumas reflexões acerca da realização do certame sejam feitas.



Entre os amantes do futebol, é raro achar alguém que não considere a Copa do Mundo o maior evento do calendário esportivo mundial. Ajuda a dimensionar essa ideia o fato de que até quem diz não acompanhar de perto o futebol, ou simplesmente não se importar com ele, é contagiado pelo inconfundível e contagiante clima que o mundial de seleções proporciona a cada quatro anos. E certamente isso ocorrerá – como já está ocorrendo – na Copa do Mundo que está a poucos dias de seu início. Mas antes de aceitarmos de bom grado o êxtase que nos tomará por completo após a bola rolar no Estádio Azteca, no próximo dia 11 de junho, para o confronto entre México e África do Sul – partida que marcará a abertura do certame – temos o compromisso de fazer algumas reflexões acerca da realização do torneio, mas especificamente sobre o seu principal anfitrião: os Estados Unidos da América.

Como é de conhecimento de todos, a Copa do Mundo que está prestes a começar será realizada em três países pela primeira vez na história – além dos EUA, México e Canadá também irão sediar o certame. Porém esse fato inédito perde relevância quando nos deparamos com a informação de que 75% das 104 partidas totais da competição irão ocorrer em território estadunidense – essa desigual divisão até pode ser alvo de críticas, mas está longe de ser um dos temas centrais ao qual devemos dedicar o nosso tempo de reflexão. Como dito anteriormente, depois que o apito inicial for dado, será difícil que algum espaço para discutir algo que perpasse as quatro linhas surja em nosso horizonte. Então este é o momento ideal para que alguns questionamentos sejam levantados.

Poderíamos começar criticando o uso propagandístico que o maior torneio de futebol do mundo está tendo para o governo dos Estados Unidos, presidido por Donald Trump. Entretanto, tal acontecimento está longe de ser inédito na história das Copas do Mundo. O que existe de mais particular, e lamentável, no contexto atual, é fato do líder norte-americano ser alguém que não hesita em falar de minorias representativas com tom altamente preconceituoso, xenófobo e racista. Para piorar, nos últimos tempos, Trump alçou o que poderia ser considerado algumas de suas formas íntimas de pensar – e de seu campo político-ideológico – ao patamar de política sistemática de governo. Nos últimos meses, o ICE, a famigerada polícia migratória do presidente, incumbiu-se de realizar truculentas abordagens e prisões em massa – algumas ações resultaram até em morte – contra grupos de imigrantes em todo território estadunidense.

Leia também:

A Copa Do Mundo, que é tão especial por reunir em um determinado território milhares de torcedores de diversas nações de todos os continentes do planeta, será realizada em um país que atualmente é altamente intolerante ao que vem de fora de suas fronteiras. E quando lembramos que esse mesmo país, sob às ordens de Trump, invadiu uma nação soberana, a Venezuela, e sequestrou o seu presidente, além de ter iniciado ao lado de Israel uma guerra contra o Irã, o que trouxe de volta o fantasma de uma Guerra Mundial e instabilidade econômica para todo o planeta – tudo isso no ano em que irá sediar uma Copa do Mundo – fica ainda mais difícil aceitar toda essa situação sem inquietação.

Vale também destacar a ironia e o cinismo de entidades esportivas, governantes de países e grande imprensa – todos esses agentes falharam em tecer críticas consistentes acerca de um país com todas essas questões levantadas ser sede de um evento dessa magnitude. Muito pelo contrário, em dezembro do ano passado, o presidente da FIFA, Gianni Infantino, entregou o primeiro “Prêmio da Paz da FIFA” para Donald Trump, entre outros motivos, por conta de seus “esforços para promover a paz”. A premiação, criada pela entidade com o intuito de reconhecer ações que unem pessoas ao redor do planeta, caiu nas mãos justamente de alguém que age demasiadamente na contramão da realização de ações dessa natureza.

Para além desse tragicômico acontecimento, é lamentável também a ausência de relevantes questionamentos e reações diplomáticas sobre os grandes anfritriões do certamente mundial – algo ironicamente distinto do que vimos nos mundiais da Rússia e Catar – e da falta de potência, ou de vontade, dos grandes veículos de mídia em realizar a ética missão de questionar e esmiuçar esses importantes assuntos – mais uma prova de como cada vez mais as questões comerciais ditam os caminhos do futebol. Por fim, não sejamos hipocritas, é claro que após a bola rolar, todos nós iremos nos deleitar com grandes atuações, partidas emblemáticas e histórias que apenas a Copa do Mundo é capaz de gerar. E tem que ser assim. Mas será importante viver todo esse êxtase com um quê de senso crítico.

Vinicius Jr, Ballon d’Or e Racismo – Algumas breves considerações

O fato de Vinicius Jr não ter conquistado a Ballon d’Or, apesar de ostentar merecidamente o status de grande favorito antes da realização da premiação, abre um oportuno espaço para que sejam feitas – no mínimo – algumas breves considerações acerca do papel central do racismo no acontecimento em questão.



Nós últimos dias de outubro deste ano, grande parcela da comunidade do futebol chocou-se com o anúncio de que Vinicius Jr perdeu o prêmio de melhor jogador do mundo da temporada 2023/24 para o volante espanhol Rodri – o atleta brasileiro, por tudo que fez no período, era o grande favorito. Mas antes de começar a tecer algumas breves considerações sobre as decorrências do fato de Vinicius Jr não ter conquistado a Ballon d’Or é preciso parabeniza-lo por conseguir manter durante os últimos anos um grande nível de atuação com a camisa do principal clube do mundo e disputando a principal competição de clubes do planeta – apesar do incalculável sofrimento mental que o racismo causa na mente de quem o sofre, seja por meio de ofensas pessoais ou por estar inserido em meios sociais que operam a partir de sua lógica. Dito isso, não há razões para tergiversar – tem que ser creditado ao racismo o papel de principal responsável por Vinicius não ter sido eleito o melhor jogador do mundo da temporada 2023/24.

Entretanto, sem nunca perder de vista o papel do racismo como pano de fundo, é preciso debater algumas outras circunstâncias do futebol na atualidade que podem nos ajudar a entender por que o jogador brasileiro não conquistou a Ballon d’Or. Em primeira análise: todos aqueles que acompanharam o futebol nos últimos quinze anos sabem que Messi e Cristiano Ronaldo dividiram praticamente sozinhos as premiações de melhor jogador da temporada durante todo esse período. E esses dois atletas não apenas, por assim dizer, privatizaram esses prêmios como também elevaram o patamar de disputa a um nível surreal, por banalizarem, entre outros diversos feitos surpreendentes, ter uma média de mais de um gol por jogo ao longo de toda uma temporada e acumularem atuações emblemáticas partida após partida.

É claro que não é nenhum demérito não estar no nível de Messi e Cristiano Ronaldo – dois dos, ao menos, cinco maiores jogadores da história do futebol – mas é preciso ter em mente que Vinicius Jr e qualquer outro atleta que postule o prêmio de melhor jogador do mundo terá o seu nível de performance e números obtidos comprados com esses dois jogadores, de forma injusta e até involuntária, diga-se de passagem. O fim da era dominada por Lionel e Cristiano deixou esse sentimento de que para ser um legítimo melhor jogador do mundo é preciso ter mais gols do que jogos ao longo do ano, conquistar os principais títulos da temporada e ainda ser artilheiro desses certames, e caso esse nível de dominância não seja atingindo, o vencedor do prêmio estará sempre sujeito a questionamentos.

Nos acostumamos a ver dois extraclasse duelando no mais alto nível pela conquista do prêmio de melhor jogador do mundo e suas ausências caudadas pela insuperável passagem do tempo nos impede de reconhecer qualidades e méritos nos atletas que passem a ocupar a lacuna deixada no topo do futebol mundial – é preciso tentar corrigir essas distorções. Iniciando a segunda análise: é o momento de pensar em o que um jogador deveria fazer para conquistar esses prêmios individuais após o fim da era Messi e Cristiano Ronaldo. Grande maioria das pessoas que acompanham o futebol acreditam que o jogador que, ao longo de uma temporada, alie grandes atuações individuais com um bom desempenho de sua equipe, obtenha boas estatísticas em suas funções dentro de campo e títulos de alguma relevância seja merecedor de conquistar a Ballon d’Or ou qualquer outro prêmio da mesma natureza.

Leia também:

Seguir essa linha de pensamento parece ser algo natural, entretanto, é uma grande ingenuidade nossa achar que o processo de escolha do vencedor também opera a partir desse raciocínio. Prêmios individuais de grande prestígio como o entregue pela revista France Football são muito mais políticos do que tecnicistas e meritocráticos – um olhar atencioso para o histórico de eleições desse tipo nos faz chegar a essa conclusão. E ao tomarmos ciência disso e relembramos do histórico de práticas, por assim dizer, políticas de Vinicius Jr desde que firmou-se como uma estrela do Real Madrid fica explicito como as dinâmicas da sociabilidade racista impediram o atacante de sagrar-se vencedor da Ballond’Or. Ao longo da temporada de 2023/24 nenhum outro jogador do mundo preencheu tão bem os tais requisitos que um legítimo vencedor do prêmio, teoricamente, deve apresentar.

Vinicius, no período, conquistou , além de outros três títulos, a Liga dos Campeões da Europa, a principal competição de clubes do planeta, com atuações memoráveis nas fases decisivas do certame – inclusive marcando um gol na finalíssima -, o jogador também atingiu a marca de quase quarenta participações em gols e mostrou-se o mais desequilibrante de sua equipe e o mais dominante de sua posição no mundo. Mas como é de conhecimento geral, ou pelos menos deveria ser, uma sociedade racista tem dificuldade em premiar e reconhecer mérito nos feitos de uma pessoa preta – outrossim, é exigido muito mais de alguém de pele escura para provar suas virtudes, capacidades e valor do que de uma pessoa de pele clara. E, acima de tudo, uma sociedade racista não tolera que um homem ou mulher preta conteste insistentemente e enfrente o racismo – justamente o que Vinicius Jr faz desde os últimos anos.

Em suma, Vinicius Jr reedita o que está escrito em um trecho do livro Pele Negra, Máscaras Brancas, do filósofo político Frantz Fanon: “O mundo branco, o único honesto, rejeitava minha participação. De um homem exige-se uma conduta de homem; de mim, uma conduta de homem negro – ou pelo menos uma conduta de preto. Eu acenava para o mundo e o mundo amputava meu entusiasmo. Exigiam que eu me confinasse, que encolhesse”. Está claro, então, que Vinicius não venceu a Ballond’Or porque prêmios como esse não são feitos para serem vencidos por pessoas como ele – alguém que nunca calou-se diante das dezenas de ataques racistas sofridos por parte de jogadores e torcedores rivais, e até mesmo de membros da imprensa e de confederações de futebol. Para finalizar – esperavam submissão, então Vinicius mostrou-se sublime; ansiavam por silêncio, então Vinicius deixou todos sem palavras com o seu talento; era requisitado que a máscara branca fosse posta, na contramão, Vinicius tornou-se o maior símbolo da luta antirracista no futebol contemporâneo – apesar de todas limitações de discurso e prática.

Hulk – A história de um herói, em preto e branco!

Hulk é um daqueles jogadores que sempre sonhamos que um dia vista a camisa de nosso clube do coração – um atacante goleador e de capacidade técnica privilegiada, um defensor implacável dos interesses de sua equipe dentro de campo, alguém que encarna perfeitamente o espírito do torcedor, um verdadeiro herói.



Quando surgiu a notícia de que Givanildo Vieira de Sousa, o Hulk, aceitou a proposta do Atlético-MG, nos últimos dias de janeiro de 2021, para vestir a camisa do clube, surgiram mais dúvidas do que certezas acerca da contratação. Por um lado, ninguém poderia negar que a agremiação de Belo Horizonte estava adquirindo um atleta de alta qualidade técnica e com um período no futebol europeu marcado pelo alto número de gols e conquistas, mas, por outro lado, era difícil tirar a razão de quem fazia contestações, levantando questões como o alto salário que o jogador iria receber, o fato de ter trinta e quatro anos de idade na ocasião e estar vindo de quatro temporadas consecutivas atuando no futebol chinês. Além disso, a memória coletiva que atrelava a imagem do jogador ao fracasso da Seleção Brasileira na Copa do Mundo de 2014 também era algo que ajudava a criar uma rejeição prévia a sua aquisição.

Atualmente, e em contraste com o cenário de incertezas de três anos atrás, não restam dúvidas de que a contratação de Hulk é uma das mais assertivas da história do Atlético-MG. O jogador, em um período relativamente curto, tornou-se uma lenda da história do clube e criou uma identificação ímpar com a torcida atleticana. Hulk, durante as últimas quatro temporadas, tem sido o grande símbolo de uma equipe vitoriosa no cenário nacional e completamente dominante no âmbito estadual, o grande rosto de um elenco que é um dos principais da América do Sul e que é responsável por alçar os atleticanos ao patamar dos grandes favoritos na disputa por qualquer competição nacional ou internacional. Talvez seja exagero dizer que existe um Atlético-MG antes da chagada de Hulk e um após a sua chegada, mas, ao menos, parece claro que o jogador inaugurou uma nova era na história recente do clube.

Leia também:

Porém Hulk não tornou-se sinônimo de Atlético-MG do dia para a noite, muito pelo contrário, a trajetória do atacante é rica e narra uma verdadeira história de herói, com tons pretos e brancos. Isso porque o jogador chegou ao clube em um contexto bem específico: Hulk desembarcou do lado alvinegro de Belo Horizonte e deparou-se com uma agremiação que vinha de uma temporada em que sofreu, assim como todo o futebol brasileiro, com os peculiares efeitos da pandemia de Covid-19 e em que não conseguiu corresponder totalmente aos investimentos milionários feitos pelo grupo de empresários conhecidos como os “4R’s”. Eram tempos em que o torcedor atleticano ansiava para que sua equipe voltasse a ter o protagonismo nacional e internacional visto no início da década anterior e não queriam ter como única fonte de alegria a então péssima fase em que o arquirrival estava.

Em meio a esse cenário, a contratação de Hulk era uma das importantes ações feitas pelos dirigentes atleticanos que serviram para injetar ânimo na veia da torcida para a temporada de 2021, assim como o aumento do aporte financeiro do famigerado grupo de empresários e a contratação do técnico Cuca. Em verdade, nada teve mais magnitude do que a chega do atleta. Hulk liderou uma equipe que encantou o país e entrou para história do clube ao conquistar a Copa do Brasil e, principalmente, por encerrar o jejum da agremiação mineira de meio século sem conquistar o Campeonato Brasileiro – o atacante terminou os dois certames como melhor jogador e artilheiro. Nas duas temporadas seguintes e até o momento da atual temporada, o Atlético-MG, apesar de não ter vencido nenhum título de grande relevância nacional ou internacional, continuou mantendo domínio em seu Estado, sendo competitivo no cenário brasileiro e da América do Sul e tendo Hulk como grande símbolo de uma era próspera.

O tal Givanildo, em suma, é um daqueles jogadores que sempre sonhamos que um dia vista a camisa de nosso clube do coração – um atacante com faro de gol e qualidade técnica invejável, capaz de conduzir uma equipe às grandes conquistas, sendo não apenas a referência técnica, como também um defensor implacável de seus interesses dentro de campo e alguém que encarna perfeitamente o espírito do torcedor. Os jogadores com esse perfil, ao longo de toda a história do futebol, sempre desempenharam um papel importante em ajudar a construir e manter a popularidade e a mística do esporte, e são ainda mais importantes na atualidade, onde o futebol em geral – e principalmente o brasileiro – carece de figuras com a qual o torcedor consiga criar vínculos fortes e duradouros. Bem aventurado, então, é a torcida atleticana, que tem alguém como Hulk defendendo as suas cores.

Endrick – Nascido para brilhar!

Os feitos de Endrick assumiram uma proporção tão grande que nos obrigam a ignorar a barreira do tempo e assumir como certeza a possibilidade do jogador alcançar o patamar de uma estrela do futebol mundial.



Todos amantes do futebol em algum momento de suas vidas conhecerem a história de algum jogador que todos tinham a convicção de que seria uma estrela do futebol mundial, mas que ao longo de sua carreira não conseguiu atingir tal status – e isso ocorre por inúmeros fatores, até porque o futebol é um meio extremamente dinâmico em que estabelecer verdades absolutas tem pouca utilidade prática e nossas supostas certezas duram pouco tempo. Mas ainda que estejamos cientes dessas histórias, quando vemos um talento fora de série somos imediatamente impulsionados a crer que estamos diante de um atleta geracional ou algo do tipo – e nesses momentos precisamos lembrar que por mais que tudo indique que algo possa acontecer, somente com o passar do tempo que poderemos ter a certeza de que realmente aconteceu.

Entretanto, o futebol parece desafiar a lógica em alguns momentos e, por vezes, faz com que algumas coisas extrapolem o campo da possibilidade – não é que possa ou não acontecer, é apenas uma questão de tempo até que aconteça. E o que e melhor personifica esse sentimento na atualidade é o caso de Endrick. É difícil achar alguém nos dias atuais que não concorde que nos próximos anos o jovem de dezessete anos de idade estará desfilando nos gramados europeus e encantando o mundo com o seu raríssimo talento. E não é uma ingenuidade ou teimosia a nossa inapelável crença em que Endrick está predestinado à glória, pois tudo nos leva a crer nisso – a representatividade dos seus gols, as suas comemorações icônicas, a gestão de sua carreira, a sua elevadíssima qualidade técnica e até mesmo a sua trajetória de vida.

Leiam também:

E parece ser indispensável realizar uma recapitulação, ainda que breve, dessa trajetória. Endrick nasceu em meados de 2006, quatro anos depois começou a ter os primeiros contatos com o futebol e, após uma infância permeada de sacrifícios próprios e familiares, conseguiu ingressar, aos dez anos de idade, no juvenil do Palmeiras. O jogador rapidamente tornou-se um fenômeno nas categorias de base do clube, o seu talento era tão grande que o possibilitou sempre atuar em categorias acima de sua idade, marcando gols, conquistando títulos e atingindo recordes – o que resultou, entre outras coisas, em sua astronômica venda para o Real Madrid, ainda aos dezesseis anos de idade. Não apanas todo o seu repertório técnico, como também o carisma, a originalidade e a identificação com os torcedores alviverdes e canarinhos foram aspectos responsáveis por forjar o imaginário coletivo dos brasileiros sobre Endrick – todos passaram a tratar o jovem como um atleta especial, a querer conhecer a sua história e assitir às suas performances.

Fatores como a elevada maturidade corporal, inteligência emocional e qualidade técnica fizeram com que o jogador personificasse perfeitamente o termo “acima da média” – Endrick, apesar de nem sequer ter completado a maioridade, sempre atuou com protagonismo, conquistou títulos de caráter estadual e nacional, marcou tentos decisivos, acumulou atuações emblemáticas, conquistou o seu espaço na Seleção Brasileira, atingiu o patamar de maior promessa do futebol brasileiro dos últimos anos, tornou-se a maior revelação da história do Palmeiras e um jogador admirado por torcedores de todo o país. E toda essa história de Endrick no futebol, dos seus incríveis números nas categorias de base até os seus impressionantes feitos em sua curta trajetória como jogador profissional, fazem com que o sucesso pareça ser o seu destino natural.

Mas talvez ainda seja importante não abandonar completamente uma linha de análise de tom, por assim dizer, racionalista. É fato que o atleta, por tudo o que faz dentro de campo e por conta de tudo o que passou até chegar ao patamar atual, não apenas deve, como também merece atingir o estrelato no esporte. Entretanto, temos que lembrar que meritocracia não existe. Nada depende apenas de um indivíduo. Não na vida, onde os contextos, a sociedade e a família importam demais. Nem no futebol, onde a sorte, o certame, o técnico e a equipe interferem muito. Endrick, de fato, ultrapassou muitas barreiras para torna-se um prodígio – estamos falando de um jovem preto que a nossa sociedade racista não vitimou, que o tráfico não recrutou, que teve um pai presente na criação e que tornou-se um jogador profissional. Porém, ainda que a glória esteja esperando-o, assumir o seu lugar na história do futebol ainda dependerá de fatores inerentes a um esporte coletivo e a uma sociedade.

Porém , caso a vida de Endrick siga o curso natural, também não será uma certeza tediosa saber que o jogador um dia chegará ao lugar onde todos nós sabemos que é seu por direito. Muito pelo contrário – será um privilégio poder acompanhar um jovem preto construir o seu reinado no futebol. Presenciamos Endrick colocar-se à frente do seu tempo ao transpassar com facilidade todas as etapas convencionais de formação de atletas nas categorias de base, vimos um menino de dezessete anos de idade ser decisivo e até referência técnica em uma equipe absolutamente consolidada e histórica como o Palmeiras de Abel Ferreira e também desfrutamos de seus gols com a camisa da Seleção Brasileira nos lendários estádios de Wembley e Santiago Bernabéu. E ainda tem muito mais por vir, das gloriosas noites européias às inesquecíveis atuações em Copas do Mundo.

Fluminense, nossas dores e nossas alegrias!

Os sentimentos expostos pela torcedores e jogadores tricolores após o Fluminense conquistar a Recopa Sul-Americana sobre a LDU atestam que cada título tem uma importância particular e, geralmente, distinta da relevância que nos acostumamos a dar a eles.



Quando o árbitro argentino Facundo Tello apitou pela última vez no gramado do Maracanã e pôs fim a partida entre Fluminense e LDU, talvez nem todos os espectadores tivessem a noção de que havia chegado ao fim naquele momento algo totalmente diferente de outro jogo qualquer – o dia 29 de fevereiro de 2024 entrou na história centenária do Tricolor das Laranjeiras de forma concomitante com o derradeiro silvo de apito. É claro que o confronto entre a equipe brasileira e a equatoriana carregava consigo algo especial, aliás, o embate era válido pela final da Recopa Sul-Americana, estavam frente a frente o atual campeão da Copa Libertadores e o da Copa Sul-Americana disputando um troféu de nível continental. Mas ao realizarmos uma contextualização histórica conseguimos ter a noção de que existiam coisas ainda maiores em jogo, principalmente para os tricolores.

Fluminense e LDU pode ser descrito como um duelo localizado em um universo particular, absolutamente autossuficiente, ao mesmo tempo causa e consequência. Isso porque ambas as equipes decidiram a final da Copa Libertadores de 2008 e da Copa Sul-Americana do ano seguinte – as duas taças foram levantadas pela agremiação do Equador no Maracanã. Essa breve recapitulação é capaz de dimensionar o que a Recopa Sul-Americana representava para o clube carioca. A oportunidade de conquistar um título continental de fato era algo importante, mas quase que secundário perto da chance que a intuição tinha de exorcizar um fantasma presente na vida de todos os seus torcedores e vingar-se de um clube que a privou de tantas glórias, também era, acima de tudo, a oportunidade de honrar todos os tricolores, vivos e mortos, que viveram os traumas causados pela LDU.

E essa missão quase que transcendental que os deuses do futebol imcubiram à equipe tricolor de realizar surgiu de forma emblemática, após a conquista da Copa Libertadores em pleno Maracanã. Quando John Kennedy acertou o chute onírico, no minuto 99 da prorrogação, e fez o Fluminense alçar o topo da América pela primeira vez na história, a torcida tricolor atingiu um estado de êxtase poucas vezes antes visto. Mas apesar da genuína e satisfatória alegria ter tirado o espaço para que qualquer outro sentimento pudesse florescer, todo torcedor carregava consigo a apreensão de ter certeza íntima de que junto com a tão almejada conquista surgia não apenas a possibilidade, como também a necessidade de triunfar sobre a LDU na finalíssima da Recopa Sul-Americana e por fim no que poderia ser considerado a grande sina da história da agremiação carioca.

Leia também:

E quis o destino que a terceira final continental entre Fluminense e LDU trouxesse todos os elementos marcantes dos embates anteriores – primeira partida em Quito e a segunda no Rio de Janeiro, a altitude no Equador, o espetáculo da torcida tricolor no Maracanã, as polêmicas de arbitragem, etc. Em Quito, os donos da casa triunfaram por 1 a 0 em uma peleja marcada principalmente pela combatividade das equipes. No segundo jogo da finalíssima, assim como nas decisões passadas, o Maracanã presenciou uma partida dramática, em que apesar da equipe carioca impor-se tecnicamente e taticamente, teve grandes dificuldades para transpassar o sistema defensivo do adversário – até o momento em que Arias despontou como o herói de uma noite especial. O colombiano  igualou o placar agregado da decisão a 15 minutos do fim da peleja e no último minuto do tempo regulamentar converteu com maestria o pênalti que assegurou o histórico título.

Porém ainda houve algo mais impactante do que a inédita conquista – a reação dos atletas tricolores após o título. Diversos jogadores, a grande maioria deles multicampeões nacionalmente e até internacionalmente, deram declarações em que deixaram claro que vencer a decisão frente a LDU não era uma opção, mas, sim, um dever, e que o título teria como maior serventia honrar a memória dos tricolores que não estão mais em vida. Os atletas parecem ter entendido que não é apenas a relevância de um título que faz ele importante, é principalmente o simbolismo subjetivo que ele tem para o clube e seus torcedores. E ninguém vai negar que a agremiação carioca possui conquistas de maior expressão, porém todo o contexto histórico e a carga emocional envolvida no confronto fazem com que a Recopa Sul-Americana e sua partida derradeira seja, respectivamente, um dos maiores títulos e principais jogos da história do Fluminense.

Na direção contrária da euforia da torcida tricolor, surgiu uma espécie de onda reducionista. Em veículos de imprensa e nas redes sociais, pôde-se notar discursos que tinham como linha geral diminuir o feito do clube carioca, alagando, entre outras coisas, que a Recopa Sul-Americana não é um título de grande expressão e, consequentemente, não deveria ser festejado com grande euforismo. E ao analisarmos a questão a partir de um prisma pragmático, esse discurso torna-se plausível. Até porque é de fato importante que o jornalista esportivo racionalize a relação com o esporte e não deixe-se levar pelo frisson das arquibancadas. O que está errado, ou pelo menos é uma ingenuidade, é achar que os torcedores do Fluminense ou de qualquer outro clube devam comemorar suas conquistas de forma proporcional com o peso que elas teoricamente possuem, ao invés de terem como base as emoções pessoais e únicas que elas proporcionam.

Em síntese: nos acostumamos a preestabelecer um valor para cada campeonato. Dia após dia dizemos que os troféus que realmente importam são a Copa Libertadores e o Campeonato Brasileiro, é agregado um valor menor a Copa do Brasil – por vezes tratada até mesmo como um prêmio de consolação – e os demais torneios são considerados insatisfatórios. E de fato é importante saber que cada campeonato tem uma grandeza particular, pois cada um deles proporciona premiações financeiras distintas e capacidades de aumentar a relevância nacional e intencional diferentes. Entretanto é igualmente importante ter em mente que conquistar um troféu, seja ele qual for, nunca tem uma importância pré-dedinida e estratificada, pois a real importância não depende de um suposto valor intrínseco que cada título carrega consigo, mas, sim, das particularidades da história e do momento atual de cada clube e torcida.

Neymar, nós também somos o que perdemos!

Lembrar do jogador de futebol Neymar é, sobretudo, lembrar de algo que aparenta não existir mais, é como ter saudades de um finado. Mas também pode ser – e precisa ser – uma oportunidade de lembrarmos que nós também somos o que perdemos, que podemos voltar a ser o que um dia fomos.



Copa do Mundo Catar 2022. Quartas de final. Era o último minuto do primeiro tempo da prorrogação, Brasil e Croácia ainda não haviam mexido no marcador. E então Neymar faz linda tabela com Rodrygo e Lucas Paquetá na entrada da área, o camisa 10 recebe de frente para o goleiro, o dribla facilmente e chuta a bola para dentro do gol. Neymar acabara de marcar um tento antológico e que parecia ser o mais importante de sua carreira, um tento que poderia mudar não apenas a história do próprio jogador, como também da Seleção Brasileira e até mesmo do futebol mundial. Talvez não ajude tanto a dimensionar o significado de tal gol, mas é válido dizer que ele é até os dias atuais o mais comemorado na vida deste que vos escreve – um momento eternizado sobre as areias da praia de Copacabana, na FIFA Fan Fest.

Porém cerca de meia hora depois desse evento canônico, o sentimento que impera entre todos os brasileiros que estavam no Estádio da Cidade da Educação, na praia mais famosa do mundo ou em qualquer outro lugar é o de tristeza – a Croácia eliminou o Brasil nos pênaltis e avançou às semifinais do mundial de seleções. O evento citado é apenas mais um entre tantos outros que parecem ter impedido Neymar de alcançar a grandiosidade que o seu talento poderia o proporcionar, mas talvez seja o mais simbólico, pois representa perfeitamente o espírito do atleta, que sempre que esteve em campo tentou levar a sua equipe à vitória. O grande contraste com os dias atuais é que esse Neymar parace estar morto, não vemos mais o jogador que encantava multidões nos estádios mundo a fora, em seus olhos não há mais a sede por grandes conquistas ou por estar na elite do futebol.

Talvez nem todos tenham a coragem, pelo menos atualmente, para admitir isto, mas a verdade é que todo amante do futebol apaixonou-se por Neymar em algum momento de suas vidas. Seja pelo garoto franzino e de cabaça raspada que nasceu para o mundo do futebol profissional na cidade de Santos, um menino flutuante, alegre, impetuoso e imparável nos gramados brasileiros, e que amadureceu em campo jogo após jogo, conquistou a Copa Libertadores, o Prêmio Puskás e a notável alcunha de hors concours. Ou o ainda jovem que chegou em Barcelona um jogador completo, brindou a Europa com subsequentes deslumbrantes performances, venceu a Liga dos Campeões e alcançou de forma incontestável à realeza do futebol de nossa época.

Leia também:

Era possível apaixonar-se até mesmo pelo Neymar que partiu rumo à Páris com missão de liderar o PSG à conquista do velho continente, e, apesar de ter falhado, nunca desistiu de manter-se encantador em campo. É impossível negar que o atleta chegou a brilhar com a camisa desses três clubes – e também com a camisa da Seleção Brasileira –, mas ao mesmo tempo é difícil negar que ele poderia ter atingido um nível ainda maior. E a transferência do jogador para o Al-Hilal, da Arábia Saudita, em agosto do ano passado, escancara a sua acentuada espiral de queda. Tal espiral é creditada principalmente pela forma como Neymar conduziu a sua vida privada e sua carreira. As festanças e irregularidades financeira, a acusação de estupro e assédio sexual, e a falta de profissionalismo em alguns momentos, são fatores que de fato interferiram, mas nada chegou perto de ser tão determinante quanto as lesões.

O jornalista e escritor Sergio Vázquez Jodar certa vez escreveu – “Existem muitos mundos paralelos em nossas vidas: aviões que não pegamos, e-mails que apagamos ou noites que ficamos em casa. Em todos os mundos paralelos em que Neymar não se machuca, ele ganha a bola de ouro!”. Ao lembrarmos das muitas memoráveis performances nos grandes jogos e estádios, dos incríveis dribles desconcertantes e desmoralizantes, e dos históricos e fantásticos gols do jogador é difícil não concordar com a afirmação de Jodar. Neymar pode ter cometido muitos erros ao longo da carreira, mas são as lesões que nos privaram de ver o que poderia ser um dos maiores jogadores da história do futebol,  foram os longos períodos afastado dos gramados que impediram um príncipe de torna-se rei.

As diversas lesões que chegaram a tirar o atleta da disputa de uma Copa do Mundo, das fases eliminatórias de algumas edições de Champions League e de muitos e muitos jogos ao longo de sua carreira não costumam receber a mesma relevância nos debates esportivos sobre o jogador como os seus problemas com a justiça, suas postagens em redes sociais ou suas idas à baladas e carnavais. E talvez esteja certo quem diz que o jogador não precisa mais do futebol, que ele não tem mais o interesse em manter-se atuando em alto nível. Mas também é certo dizer que o futebol até pode não precisar de Neymar para ser o esporte mais espetacular do planeta, mas certamente o merece. É uma necessidade espiritual ver por pelo menos mais alguns instantes o jogador flutuar em campo, deixar adversários no chão e marcar gols que desafiam a razão.

Por fim, ainda que atualmente não existam muitos indícios que nos possibilitem acreditar fielmente nesta ideia, é preciso dizer que o atleta de trinta e dois anos de idade ainda pode voltar a encantar o mundo, que ainda pode ser lembrado unicamente por seu genuíno talento, por sua invejável capacidade de decisão e diversas conquistas. Nós também somos o que perdemos, os vôos em que não embarcamos, as festas não idas, os encontros cancelados, os amores não correspondidos, os chutes que batem na trave e não entram. E Neymar não é diferente de nós. Ele ainda é a alegria e ousadia dos tempos de Santos, a nobreza ímpar da época de Barcelona, o brilhantismo com a camisa do escrete nacional, o deslumbre de liderança das jornadas em Paris e todos os dribles e gols que nos emocionaram durante anos.

Fluminense e a temporada dos sonhos!

Ao olharmos para os principais eventos da temporada de 2023 do Fluminense não ficam dúvidas de que é o tom onírico que impera sob qualquer outra sensação.



Antes do início da temporada de 2023, não era difícil de imaginar que esse ano, diferentemente do que ocorria no início dos anos anteriores, poderia ser no mínimo satisfatório para o Fluminense, isso porque a temporada de 2022 deixou sinais consistentes para termos essa sensação – a facilidade com que o estilo de jogo do técnico Fernando Diniz conseguiu ser compreendido e aplicado pelos seus comandados, ter ficado na terceira colocação no Campeonato Brasileiro e vencido o Campeonato Carioca, ainda sob a tutela do treinador Abel Braga, eram os principais fatores que contribuíam para isso. Mas algo ainda nos impedia de imaginar que o clube das laranjeiras poderia disputar as principais competições com chances reais de conquista – a disparidade financeira que existia, e ainda existe, entre ele e as principais potências futebolísticas do país.

É bem verdade que o Fluminense teve um ano animador em 2022 sob as mesmas condições financeiras que estão vigentes atualmente – o clube estava longe de ter uma das maiores folhas salariais entre as principais equipes do Brasil e ainda mais longe de ter sido um dos que mais investiu em contratações. E a manutenção desse cenário parecia que iria fazer com que Flamengo e Palmeiras dominassem, como de costume no último lustro, os certamentes mais importantes do país. Mas, com a temporada de 2023 do futebol brasileiro tendo chegado ao fim, não há como negar que a equipe tricolor contrariou as expectativas e venceu com todos os méritos o certame estadual – aplicando impiedosos 4 a 1 no Flamengo na finalíssima, após ter perdido o primeiro jogo da decisão por 2 a 0 – e, pala primeira vez na história do clube, a Copa Libertadores, frente ao Boca Juniors, em pleno Maracanã.

Leia também:

É também importante lembrar que mesmo na temporada mais icônica da história do Fluminense, nem tudo foram flores. A equipe tricolor teve períodos de oscilação ao longo do ano e sofreu algumas derrotas em que o adversário mostrou-se bastante superior. Mas até no revés que pode ser considerado o mais marcante da temporada – os 4 a 0 frente ao Manchester City, na final do Mundial de Clubes – Diniz e seus comandados em nenhum momento deixaram de tentar atuar à sua própria maneira, além de terem conseguido dominar, por alguns minutos, o adversário e expor ao mundo o particular estilo de jogo que os fizeram disputar uma competição de caráter intercontinental – aspectos que assumem um grau de relevância importante quando consideramos a esmagadora diferença financeira e técnica entre o clube brasileiro e o inglês.

Apesar dos poucos pesares ao longo do ano, nada será mais marcante para o torcedor tricolor que acompanhou o Fluminense nesta temporada do que os mágicos momentos vividos pelo clube. Momentos tão inesquecíveis que dispensam até mesmo qualquer contextualização para serem não apenas lembrados, como também sentidos pela torcida. Seja quando Marcelo driblou um punhado de jogadores rubro-negros e abriu o caminho para a goleada histórica, ou quando o placar de 5 a 1 contra o River Plate serviu como prova cabal de que 2023 reservava algo grandioso para a agremiação; ainda mais memorável quando a canção ‘Tá escrito’ prenunciou o milagre do Beira-Rio; e é claro que todo tricolor, vivo ou morto, nunca vai esquecer de quando Keno ajeitou de cabeça para John Kennedy disparar um chute onírico e exorcizar os fantasmas de 2008, pintando o continente de verde, branco e grená.

Botafogo, Vasco e verdades sobre as SAFs

As atuais situações de Botafogo e Vasco trazem à tona algumas verdades sobre as SAFs difíceis de serem aceitas.



O mês de junho está chegando ao fim e com isso podemos dizer que a temporada de 2023 do futebol brasileiro entrou em sua metade final. Entre algumas coisas que podem ser destacadas no futebol nacional até este momento do ano, destaca-se como uma das mais interessantes a comparação entre o desempenho esportivo de Botafogo e Vasco. Ambos os clubes tornaram-se SAF recentemente – a agremiação de General Severiano assinou o contrato que oficializou a compra de 90% da Sociedade Anônima do Futebol do clube por parte da empresa do bilionário norte-americano John Textor em março do ano passado; já os sócios do Cruzmaltino aprovaram a venda de 70% da SAF da instituição para a empresa estadunidense 777 Partners em agosto do mesmo ano. Atualmente, o Botafogo é líder do Campeonato Brasileiro e o Vasco está na zona de rebaixamento.

Ao olharmos para o excelente momento do Botafogo e para a péssima fase do Vasco é interessante também perceber como tudo no futebol brasileiro pode mudar de forma repentina. Após o fim do Campeonato Carioca, a impressão era a de que o Botafogo de Luís Castro, que nem sequer classificou-se às semifinais do torneio, estava totalmente estagnado em seu processo de construção de uma equipe que pudesse corresponder às expectativas de sua torcida – que no caso dos adeptos do clube poderiam até ser consideradas expectativas bem razoáveis. O Vasco de Maurício Barbieri, por outro lado, passou uma impressão relativamente animadora após apresentar no certame estadual um nível de competitividade que não era visto na equipe há bastante tempo.

Está claro que a situação dos clubes inverteram-se completamente – e é importante analisar o porquê disso. Mas é mais importantes do que qualquer outra coisa atentar-se ao que o panorama atual desses dois clubes nos dizem a respeito das SAFs. Bem, é fato que os grandes clubes do futebol brasileiro que tornaram-se Sociedade Anônima do Futebol nos últimos anos possuem algo em comum: todos viviam o pior momento de sua história. É fato também que o ato de um clube migrar do modelo de gestão associativo para o modelo empresarial é tratado pela grande maioria dos dirigentes e torcedores desses clubes, além de grande parte da imprensa, como algo positivo – muito por conta de indicar uma espécie de libertação dos clubes das mãos daqueles que os levaram à crises sem precedentes.

Leia também:

Entretanto os processos de transformação dos grandes clubes de nosso país em SAF carregam consigo não somente a promessa de que eles irão sair de uma crise de consequências quase que falimentar, como também trazem o sentimento de que essas agremiações terão equipes competitivas, não irão mais sofrer financeiramente e esportivamente e até mesmo retornarão a ter momentos gloriosos – e esse sentimento é algo retroalimentado, em maior ou menor grau, por grande parte dos novos donos dos clubes, torcedores, dirigentes e membros da imprensa. Mas ao observarmos a realidade percebemos que não é bem assim que as coisas acontecem. A verdade é que um clube de futebol ao transformar-se em SAF irá, muito provavelmente, ter uma “saúde financeira” estável, mas não necessariamente alcançará o que entendemos como sucesso esportivo.

Após a mudança do modelo de gerência associativo para o empresarial, os torcedores de Botafogo e Vasco de fato viram os seus clubes aumentarem a capacidade de investimento, alcançarem uma patamar financeiro não desprezível e extinguirem a possibilidade de falência. Então o que realmente faz com que a situação das duas equipes sejam tão diferentes em termos esportivos é justamente o planejamento esportivo – quesito em que o Botafogo, por diferentes razões, está à frente do Cruzmaltino. É claro que muita coisa ainda pode mudar ao longo desta temporada, mas é evidente também que o fato do Alvinegro estar fazendo até o momento a sua melhor campanha na história do Campeonato Brasileiro de pontos corridos e o Vasco uma de suas piores é algo que da o tom do restante do ano para essas duas agremiações.

Vinicius Júnior, racismo e a violência como resposta!

A mais recente onda de ataques racistas a Vinícius Jr evidenciou que o uso da violência é a única resposta eficaz contra o racismo.



Parecia que estávamos apenas assistindo a mais um jogo do Campeonato Espanhol, pois nada era muito especial naquele confronto entre Valência e Real Madrid. Nenhuma coisa fora da normalidade de uma partida qualquer de futebol estava ocorrendo até o momento em que ofensas racistas começaram a ser ouvidas no Estádio de Mestalla – Vinícius Jr era o alvo. O atacante do Real Madrid, enquanto grande parte da torcida valacentista o chamava de macaco, revoltou-se de forma justa e necessária diga-se de passagem, com a situação. Vinícius agrediu e sofreu agressões dos jogadores adversários, ainda assim, acabou sendo o único expulso de campo. Assim, em resumo, configurou-se a mais recente onda de ataques racistas sofridas pelo atleta brasileiro.

A fatídica partida entre Valência e Real Madrid ocorreu no último dia 21 de maio. Passaram, portanto, cerca de três semanas do ocorrido e nesse período de tempo vimos uma comoção gigantesca de diferentes parcelas da sociedade com tudo que Vinícius Jr sofreu. Campanhas contra o racismo e em solidariedade ao jogador foram feitas no Brasil e na Espanha – clubes e suas torcidas, federações de futebol, veículos de imprensa e políticos, incluindo até mesmo Luiz Inácio Lula da Silva, o atual presidente de nosso país, participaram do movimento. Mas fato é que o distanciamento temporal do ocorrido nos permite afirmar que nada disso teve a capacidade de mudar radicalmente o panorama do racismo na Espanha, no Brasil ou em qualquer lugar do mundo.

Leia também:

É importante dizer que as ofensas racistas sofridas por Vinícius Jr em Valência não foram um ponto fora curva – muitíssimo pelo contrário. O atleta sofreu, dentro e fora dos estádios, pelo menos uma dezena de ataques racistas desde o ano de 2021. E, ainda que pareça um absurdo, foram necessários inúmeros ataques e um evento de proporções tão repugnantes como o que vimos no Estádio de Mestalla para que o sentimento de que essa onda racista precisaria urgentemente acabar contagiasse a esmagadora maioria das pessoas – e ainda assim nada mudou. A sensação é a de que o racismo talvez tenha saído ileso do que podemos chamar de “período de turbulência” em seu funcionamento convencional.

Podemos, então, chegar a conclusão de que tudo o que vem sendo feito para combater o racismo no futebol e na sociedade não está sendo eficaz. E isso ocorre porque – ao contrário do que muitas pessoas ainda pensam –, o racismo não se manifesta apenas na esfera pessoal: xingamentos, gritos, cânticos, etc. O racismo é algo estruturante da nossa sociedade – ele é uma força invisível que molda a forma como todos nós nos relacionamos, guia acções, ideias e a vida em geral. É evidente, então, que as ações que estão sendo tomadas até podem trazer algum avanço na luta antirracista, mas não irão trazer mudanças radicais. Usar a violência para combater o racismo, seja ela institucional, econômica e até mesmo física, é a ação necessária a ser feita – pois o racismo é algo essencialmente violento.

Por último, é importante dizer que este curto texto não tem a intenção de aprofundar-se na temática do racismo, suas esferas, dinâmicas, causas, consequências e etc. O escrito tem a intenção apenas de endossar as importantes campanhas antirracistas do meio do futebol que ganharam um apelo considerável com o ocorrido com Vinícius Jr, mas sem deixar de alertar que elas são insuficientes para gerarem alguma mudança radical na estrutura racista presente no esporte e na sociedade espanhola, brasileira ou em qualquer outra, além de também mostrar a ferramenta que tem a capacidade de nos levar a combater o racismo de uma forma realmente eficaz.

Voltaremos a discutir o tema, camaradas.

A complexidade do futebol e suas armadilhas!

A complexidade do futebol é motivo de fascínio para quem tem um olhar atento ao Jogo. Mas, ao mesmo tempo que fascina, ela também traz armadilhas.



O futebol é um esporte simples em sua essência, porém complexo em seu funcionamento. É simples no sentido de que qualquer pessoa consegue assimilar suas regras sem nenhuma grande dificuldade; conseguimos olhar para uma partida de futebol e enteder o que está acontecendo sem nenhum grande esforço; não é necessário ter nenhum grande conhecimento prévio para desfrutar do futebol de maneira satisfatória – esses são alguns dos aspectos citados, diga-se de passagem, de forma correta quando tentam explicar o fato desse esporte ser o mais popular do planeta. Entretanto o futebol também é muito complexo, no sentido de que diversos fatores exercem influência sobre o que ocorre dentro de campo – e é exatamente nesse ponto que ele nos trás algumas armadilhas.

Antes de mais nada, peço para que atentem-se apenas ao campo das análises sobre o Jogo – aquela parte do futebol que está ligada às interações entre o que acontece no gramado e suas decorrências mais diretas – e ignorem, somente durante a leitura deste escrito, a parte do futebol que relaciona-se com geopolítica, economia, cultura e afins. Isso irá deixar as coisas um pouco menos complexas. Pois bem, a simplicidade que observamos na essência do futebol é combalida, ou até mesmo extinguida, quando olhamos para o seu funcionamento; um olhar minimamente atencioso conseguirá identificar que fatores psicológicos, táticos, sentimentais, técnicos, físicos, entre muitos outros, estão em confluência no meio do futebol profissional.

Chegamos, portanto, a uma conclusão – é possível alisar o Jogo a partir de diferentes aspectos. Por um lado, essa conclusão é importante, pois contraria quem diz que o futebol pode ser explicado a partir de uma única vertente, por outro lado, ela de pouco nos serve, uma vez que cria novas questões a serem respondidas. A principal delas é – ao assumirmos que é possível alisar o Jogo a partir de diferentes aspectos, temos que assumir também que existe algum aspecto mais importante do que outro? A resposta é não. É claro que algum aspecto pode ser mais perceptível do que outro ao longo de uma partida, mas isso não muda o fato de que outros aspectos também estão influenciando no que ocorre em campo. É importante também dizer que existem espécies de parcelas entre quem acompanha o futebol e que cada uma dessas parcelas enxergam o Jogo através de uma ótica preferencial.

Leia também:

Notem: o torcedor comum, muito por conta de ter uma ligação quase que exclusivamente passional com o esporte, tende a dar mais atenção aos aspectos anímicos e psicológicos do Jogo e a ignorar, parcialmente ou completamente, o aspecto tático. Por outro lado, também existem muitos torcedores que lêem o futebol prioritariamente a partir de um viés tático e aprofundam-se nesse vasto tema – com o aumento de ferramentas de estudo e da disseminação do assunto, esse fenômeno cresce dia após dia. É verdade também que os grupos de pessoas com formas preferencias de interpretar o futebol não estão restritos aos torcedores comuns – eles também são vistos na imprensa esportiva, por exemplo. É comum que jornalistas/comentaristas enxerguem o Jogo, por inúmeros e diferentes motivos, através de uma ótica principal.

E é algo de fato normal que certos nichos de torcedores tenham suas formas preferências de interpretar o futebol, até porque nem todos eles relacionam-se com o esporte da mesma forma. Mas entender isso como normal não pode nos fazer ignorar os potenciais problemas que isso pode causar. Acharmos que a nossa maneira preferencial de enxergar o futebol é mais correta do que as outras certamente irá fazer com que as nossas análises não consigam ser fidedignas com a realidade. Em última instância, isso pode nos levar a fazer comentários que incitam o sentimento de ódio contra jogadores, técnicos e dirigentes – o que pode ter consequências trágicas para eles e para nós mesmos.

Por fim: a grande conclusão a qual podemos chegar a partir do pensamento estabelecido neste curto escrito é que o futebol, por conta dos inúmeros fatores que estão em confluência em seu ambiente profissional, é um esporte complexo e que ignorar tal complexidade irá fazer com que qualquer pessoa não consiga analisar o Jogo, por assim dizer, de forma satisfatória. O caminho para fugirmos das armadilhas que a complexidade do futebol nos trás é, antes de mais nada, assumirmos essa complexidade, também é importante assitir às partidas completas, e nunca substituir isto por vídeos de melhores momentos das pelejas, para conseguirmos indentificar quais fatores estão mais presentes dentro de campo e no ambiente dos clube em geral, e como eles estão interagindo uns com os outros – isso irá melhorar a forma como enxergamos o esporte.