Neymar, nós também somos o que perdemos!

Lembrar do jogador de futebol Neymar é, sobretudo, lembrar de algo que aparenta não existir mais, é como ter saudades de um finado. Mas também pode ser – e precisa ser – uma oportunidade de lembrarmos que nós também somos o que perdemos, que podemos voltar a ser o que um dia fomos.



Copa do Mundo Catar 2022. Quartas de final. Era o último minuto do primeiro tempo da prorrogação, Brasil e Croácia ainda não haviam mexido no marcador. E então Neymar faz linda tabela com Rodrygo e Lucas Paquetá na entrada da área, o camisa 10 recebe de frente para o goleiro, o dribla facilmente e chuta a bola para dentro do gol. Neymar acabara de marcar um tento antológico e que parecia ser o mais importante de sua carreira, um tento que poderia mudar não apenas a história do próprio jogador, como também da Seleção Brasileira e até mesmo do futebol mundial. Talvez não ajude tanto a dimensionar o significado de tal gol, mas é válido dizer que ele é até os dias atuais o mais comemorado na vida deste que vos escreve – um momento eternizado sobre as areias da praia de Copacabana, na FIFA Fan Fest.

Porém cerca de meia hora depois desse evento canônico, o sentimento que impera entre todos os brasileiros que estavam no Estádio da Cidade da Educação, na praia mais famosa do mundo ou em qualquer outro lugar é o de tristeza – a Croácia eliminou o Brasil nos pênaltis e avançou às semifinais do mundial de seleções. O evento citado é apenas mais um entre tantos outros que parecem ter impedido Neymar de alcançar a grandiosidade que o seu talento poderia o proporcionar, mas talvez seja o mais simbólico, pois representa perfeitamente o espírito do atleta, que sempre que esteve em campo tentou levar a sua equipe à vitória. O grande contraste com os dias atuais é que esse Neymar parace estar morto, não vemos mais o jogador que encantava multidões nos estádios mundo a fora, em seus olhos não há mais a sede por grandes conquistas ou por estar na elite do futebol.

Talvez nem todos tenham a coragem, pelo menos atualmente, para admitir isto, mas a verdade é que todo amante do futebol apaixonou-se por Neymar em algum momento de suas vidas. Seja pelo garoto franzino e de cabaça raspada que nasceu para o mundo do futebol profissional na cidade de Santos, um menino flutuante, alegre, impetuoso e imparável nos gramados brasileiros, e que amadureceu em campo jogo após jogo, conquistou a Copa Libertadores, o Prêmio Puskás e a notável alcunha de hors concours. Ou o ainda jovem que chegou em Barcelona um jogador completo, brindou a Europa com subsequentes deslumbrantes performances, venceu a Liga dos Campeões e alcançou de forma incontestável à realeza do futebol de nossa época.

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Era possível apaixonar-se até mesmo pelo Neymar que partiu rumo à Páris com missão de liderar o PSG à conquista do velho continente, e, apesar de ter falhado, nunca desistiu de manter-se encantador em campo. É impossível negar que o atleta chegou a brilhar com a camisa desses três clubes – e também com a camisa da Seleção Brasileira –, mas ao mesmo tempo é difícil negar que ele poderia ter atingido um nível ainda maior. E a transferência do jogador para o Al-Hilal, da Arábia Saudita, em agosto do ano passado, escancara a sua acentuada espiral de queda. Tal espiral é creditada principalmente pela forma como Neymar conduziu a sua vida privada e sua carreira. As festanças e irregularidades financeira, a acusação de estupro e assédio sexual, e a falta de profissionalismo em alguns momentos, são fatores que de fato interferiram, mas nada chegou perto de ser tão determinante quanto as lesões.

O jornalista e escritor Sergio Vázquez Jodar certa vez escreveu – “Existem muitos mundos paralelos em nossas vidas: aviões que não pegamos, e-mails que apagamos ou noites que ficamos em casa. Em todos os mundos paralelos em que Neymar não se machuca, ele ganha a bola de ouro!”. Ao lembrarmos das muitas memoráveis performances nos grandes jogos e estádios, dos incríveis dribles desconcertantes e desmoralizantes, e dos históricos e fantásticos gols do jogador é difícil não concordar com a afirmação de Jodar. Neymar pode ter cometido muitos erros ao longo da carreira, mas são as lesões que nos privaram de ver o que poderia ser um dos maiores jogadores da história do futebol,  foram os longos períodos afastado dos gramados que impediram um príncipe de torna-se rei.

As diversas lesões que chegaram a tirar o atleta da disputa de uma Copa do Mundo, das fases eliminatórias de algumas edições de Champions League e de muitos e muitos jogos ao longo de sua carreira não costumam receber a mesma relevância nos debates esportivos sobre o jogador como os seus problemas com a justiça, suas postagens em redes sociais ou suas idas à baladas e carnavais. E talvez esteja certo quem diz que o jogador não precisa mais do futebol, que ele não tem mais o interesse em manter-se atuando em alto nível. Mas também é certo dizer que o futebol até pode não precisar de Neymar para ser o esporte mais espetacular do planeta, mas certamente o merece. É uma necessidade espiritual ver por pelo menos mais alguns instantes o jogador flutuar em campo, deixar adversários no chão e marcar gols que desafiam a razão.

Por fim, ainda que atualmente não existam muitos indícios que nos possibilitem acreditar fielmente nesta ideia, é preciso dizer que o atleta de trinta e dois anos de idade ainda pode voltar a encantar o mundo, que ainda pode ser lembrado unicamente por seu genuíno talento, por sua invejável capacidade de decisão e diversas conquistas. Nós também somos o que perdemos, os vôos em que não embarcamos, as festas não idas, os encontros cancelados, os amores não correspondidos, os chutes que batem na trave e não entram. E Neymar não é diferente de nós. Ele ainda é a alegria e ousadia dos tempos de Santos, a nobreza ímpar da época de Barcelona, o brilhantismo com a camisa do escrete nacional, o deslumbre de liderança das jornadas em Paris e todos os dribles e gols que nos emocionaram durante anos.

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