O fato de Vinicius Jr não ter conquistado a Ballon d’Or, apesar de ostentar merecidamente o status de grande favorito antes da realização da premiação, abre um oportuno espaço para que sejam feitas – no mínimo – algumas breves considerações acerca do papel central do racismo no acontecimento em questão.
Nós últimos dias de outubro deste ano, grande parcela da comunidade do futebol chocou-se com o anúncio de que Vinicius Jr perdeu o prêmio de melhor jogador do mundo da temporada 2023/24 para o volante espanhol Rodri – o atleta brasileiro, por tudo que fez no período, era o grande favorito. Mas antes de começar a tecer algumas breves considerações sobre as decorrências do fato de Vinicius Jr não ter conquistado a Ballon d’Or é preciso parabeniza-lo por conseguir manter durante os últimos anos um grande nível de atuação com a camisa do principal clube do mundo e disputando a principal competição de clubes do planeta – apesar do incalculável sofrimento mental que o racismo causa na mente de quem o sofre, seja por meio de ofensas pessoais ou por estar inserido em meios sociais que operam a partir de sua lógica. Dito isso, não há razões para tergiversar – tem que ser creditado ao racismo o papel de principal responsável por Vinicius não ter sido eleito o melhor jogador do mundo da temporada 2023/24.
Entretanto, sem nunca perder de vista o papel do racismo como pano de fundo, é preciso debater algumas outras circunstâncias do futebol na atualidade que podem nos ajudar a entender por que o jogador brasileiro não conquistou a Ballon d’Or. Em primeira análise: todos aqueles que acompanharam o futebol nos últimos quinze anos sabem que Messi e Cristiano Ronaldo dividiram praticamente sozinhos as premiações de melhor jogador da temporada durante todo esse período. E esses dois atletas não apenas, por assim dizer, privatizaram esses prêmios como também elevaram o patamar de disputa a um nível surreal, por banalizarem, entre outros diversos feitos surpreendentes, ter uma média de mais de um gol por jogo ao longo de toda uma temporada e acumularem atuações emblemáticas partida após partida.
É claro que não é nenhum demérito não estar no nível de Messi e Cristiano Ronaldo – dois dos, ao menos, cinco maiores jogadores da história do futebol – mas é preciso ter em mente que Vinicius Jr e qualquer outro atleta que postule o prêmio de melhor jogador do mundo terá o seu nível de performance e números obtidos comprados com esses dois jogadores, de forma injusta e até involuntária, diga-se de passagem. O fim da era dominada por Lionel e Cristiano deixou esse sentimento de que para ser um legítimo melhor jogador do mundo é preciso ter mais gols do que jogos ao longo do ano, conquistar os principais títulos da temporada e ainda ser artilheiro desses certames, e caso esse nível de dominância não seja atingindo, o vencedor do prêmio estará sempre sujeito a questionamentos.
Nos acostumamos a ver dois extraclasse duelando no mais alto nível pela conquista do prêmio de melhor jogador do mundo e suas ausências caudadas pela insuperável passagem do tempo nos impede de reconhecer qualidades e méritos nos atletas que passem a ocupar a lacuna deixada no topo do futebol mundial – é preciso tentar corrigir essas distorções. Iniciando a segunda análise: é o momento de pensar em o que um jogador deveria fazer para conquistar esses prêmios individuais após o fim da era Messi e Cristiano Ronaldo. Grande maioria das pessoas que acompanham o futebol acreditam que o jogador que, ao longo de uma temporada, alie grandes atuações individuais com um bom desempenho de sua equipe, obtenha boas estatísticas em suas funções dentro de campo e títulos de alguma relevância seja merecedor de conquistar a Ballon d’Or ou qualquer outro prêmio da mesma natureza.
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Seguir essa linha de pensamento parece ser algo natural, entretanto, é uma grande ingenuidade nossa achar que o processo de escolha do vencedor também opera a partir desse raciocínio. Prêmios individuais de grande prestígio como o entregue pela revista France Football são muito mais políticos do que tecnicistas e meritocráticos – um olhar atencioso para o histórico de eleições desse tipo nos faz chegar a essa conclusão. E ao tomarmos ciência disso e relembramos do histórico de práticas, por assim dizer, políticas de Vinicius Jr desde que firmou-se como uma estrela do Real Madrid fica explicito como as dinâmicas da sociabilidade racista impediram o atacante de sagrar-se vencedor da Ballond’Or. Ao longo da temporada de 2023/24 nenhum outro jogador do mundo preencheu tão bem os tais requisitos que um legítimo vencedor do prêmio, teoricamente, deve apresentar.
Vinicius, no período, conquistou , além de outros três títulos, a Liga dos Campeões da Europa, a principal competição de clubes do planeta, com atuações memoráveis nas fases decisivas do certame – inclusive marcando um gol na finalíssima -, o jogador também atingiu a marca de quase quarenta participações em gols e mostrou-se o mais desequilibrante de sua equipe e o mais dominante de sua posição no mundo. Mas como é de conhecimento geral, ou pelos menos deveria ser, uma sociedade racista tem dificuldade em premiar e reconhecer mérito nos feitos de uma pessoa preta – outrossim, é exigido muito mais de alguém de pele escura para provar suas virtudes, capacidades e valor do que de uma pessoa de pele clara. E, acima de tudo, uma sociedade racista não tolera que um homem ou mulher preta conteste insistentemente e enfrente o racismo – justamente o que Vinicius Jr faz desde os últimos anos.
Em suma, Vinicius Jr reedita o que está escrito em um trecho do livro Pele Negra, Máscaras Brancas, do filósofo político Frantz Fanon: “O mundo branco, o único honesto, rejeitava minha participação. De um homem exige-se uma conduta de homem; de mim, uma conduta de homem negro – ou pelo menos uma conduta de preto. Eu acenava para o mundo e o mundo amputava meu entusiasmo. Exigiam que eu me confinasse, que encolhesse”. Está claro, então, que Vinicius não venceu a Ballond’Or porque prêmios como esse não são feitos para serem vencidos por pessoas como ele – alguém que nunca calou-se diante das dezenas de ataques racistas sofridos por parte de jogadores e torcedores rivais, e até mesmo de membros da imprensa e de confederações de futebol. Para finalizar – esperavam submissão, então Vinicius mostrou-se sublime; ansiavam por silêncio, então Vinicius deixou todos sem palavras com o seu talento; era requisitado que a máscara branca fosse posta, na contramão, Vinicius tornou-se o maior símbolo da luta antirracista no futebol contemporâneo – apesar de todas limitações de discurso e prática.