Botafogo, Vasco e verdades sobre as SAFs

As atuais situações de Botafogo e Vasco trazem à tona algumas verdades sobre as SAFs difíceis de serem aceitas.



O mês de junho está chegando ao fim e com isso podemos dizer que a temporada de 2023 do futebol brasileiro entrou em sua metade final. Entre algumas coisas que podem ser destacadas no futebol nacional até este momento do ano, destaca-se como uma das mais interessantes a comparação entre o desempenho esportivo de Botafogo e Vasco. Ambos os clubes tornaram-se SAF recentemente – a agremiação de General Severiano assinou o contrato que oficializou a compra de 90% da Sociedade Anônima do Futebol do clube por parte da empresa do bilionário norte-americano John Textor em março do ano passado; já os sócios do Cruzmaltino aprovaram a venda de 70% da SAF da instituição para a empresa estadunidense 777 Partners em agosto do mesmo ano. Atualmente, o Botafogo é líder do Campeonato Brasileiro e o Vasco está na zona de rebaixamento.

Ao olharmos para o excelente momento do Botafogo e para a péssima fase do Vasco é interessante também perceber como tudo no futebol brasileiro pode mudar de forma repentina. Após o fim do Campeonato Carioca, a impressão era a de que o Botafogo de Luís Castro, que nem sequer classificou-se às semifinais do torneio, estava totalmente estagnado em seu processo de construção de uma equipe que pudesse corresponder às expectativas de sua torcida – que no caso dos adeptos do clube poderiam até ser consideradas expectativas bem razoáveis. O Vasco de Maurício Barbieri, por outro lado, passou uma impressão relativamente animadora após apresentar no certame estadual um nível de competitividade que não era visto na equipe há bastante tempo.

Está claro que a situação dos clubes inverteram-se completamente – e é importante analisar o porquê disso. Mas é mais importantes do que qualquer outra coisa atentar-se ao que o panorama atual desses dois clubes nos dizem a respeito das SAFs. Bem, é fato que os grandes clubes do futebol brasileiro que tornaram-se Sociedade Anônima do Futebol nos últimos anos possuem algo em comum: todos viviam o pior momento de sua história. É fato também que o ato de um clube migrar do modelo de gestão associativo para o modelo empresarial é tratado pela grande maioria dos dirigentes e torcedores desses clubes, além de grande parte da imprensa, como algo positivo – muito por conta de indicar uma espécie de libertação dos clubes das mãos daqueles que os levaram à crises sem precedentes.

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Entretanto os processos de transformação dos grandes clubes de nosso país em SAF carregam consigo não somente a promessa de que eles irão sair de uma crise de consequências quase que falimentar, como também trazem o sentimento de que essas agremiações terão equipes competitivas, não irão mais sofrer financeiramente e esportivamente e até mesmo retornarão a ter momentos gloriosos – e esse sentimento é algo retroalimentado, em maior ou menor grau, por grande parte dos novos donos dos clubes, torcedores, dirigentes e membros da imprensa. Mas ao observarmos a realidade percebemos que não é bem assim que as coisas acontecem. A verdade é que um clube de futebol ao transformar-se em SAF irá, muito provavelmente, ter uma “saúde financeira” estável, mas não necessariamente alcançará o que entendemos como sucesso esportivo.

Após a mudança do modelo de gerência associativo para o empresarial, os torcedores de Botafogo e Vasco de fato viram os seus clubes aumentarem a capacidade de investimento, alcançarem uma patamar financeiro não desprezível e extinguirem a possibilidade de falência. Então o que realmente faz com que a situação das duas equipes sejam tão diferentes em termos esportivos é justamente o planejamento esportivo – quesito em que o Botafogo, por diferentes razões, está à frente do Cruzmaltino. É claro que muita coisa ainda pode mudar ao longo desta temporada, mas é evidente também que o fato do Alvinegro estar fazendo até o momento a sua melhor campanha na história do Campeonato Brasileiro de pontos corridos e o Vasco uma de suas piores é algo que da o tom do restante do ano para essas duas agremiações.

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