Fernando Diniz e o seu compromisso com o prazer!

É impossível ser indiferente a Fernando Diniz – o atual comandante do Fluminense vem despertando amor ou ódio em quem acompanha o futebol brasileiro desde a última década. As idiossincrasias do técnico podem ajudar a explicar essas antagônicas emoções que ele desperta nas pessoas.



Fernando Diniz é um técnico que divide de forma quase que antagônica a opinião do público geral – existem os que o amam e os que o odeiam. Não é exatamente que amem ou odeiem o ser humano Fernando Diniz; o que de fato divide as opiniões a cerca do comandante é o que ele representa enquanto treinador de futebol. Odiando ou amando, fato é que ninguém é indiferente a Diniz – o que é algo no mínimo intrigante. Isso porque, em primeira análise, não é fácil entender por que um técnico que está há relativamente pouco tempo no futebol de elite nacional e que nunca conquistou nem sequer um título relevante em sua carreira desperta sentimentos tão fortes em quem acompanha o Jogo no Brasil.

Algumas questões podem ajudar a explicar o certo fascínio, para o bem e para o mal, que existe sobre a figura de Fernando Diniz. Mas, antes de mais nada, precisamos entender o que o treinador representa. Diniz – em termos bem gerais e subjetivos – simboliza o resgate do “futebol-arte”, do “futebol bem-jogado”, da “verdadeira essência do futebol brasileiro”, em uma época em que a sensação é a de que o futebol nacional caminha na direção contrária disso tudo. E é justamente essa ideia de que Diniz é um técnico diferente da esmagadora maioria dos outros de nosso país, o represente do Jogo que encanta, que faz com que ele goze de um apreço até sentimental de torcedores Brasil afora.

Para além do grande apreço que tem de muitos torcedores, o treinador também tem uma relação afetuosa com muitos dos atletas que treinou ao longo de sua carreira. O que pode ajudar a justificar tal relação é confiança que Diniz – psicólogo por formação – passa aos seus atletas nos jogos e treinos, além de sua notável capacidade de potencializar e aumentar as valências de diversos jogadores – da periferia à elite do futebol nacional. Acredito, entretanto, que – acima de tudo – tanto para os torcedores quanto para os jogadores o que mais cria apreço a Diniz é o compromisso – que talvez nem tenha sido firmado de forma totalmente deliberada – que ele tem com o prazer. Aos torcedores, Diniz proporciona o prazer de assitir futebol, aos atletas, o prazer de jogar.

Mas por que Diniz – mesmo sendo o técnico que atualmente mais representa ideias bastantes caras a muitos torcedores brasileiros – tem uma grande rejeição de uma parcela considerável deste grupo? A resposta para essa pergunta talvez não seja surpreendente – pelo menos não para quem observa as características gerais dos adeptos brasileiros. O torcedor de nosso país, via de regra, é um ser que até valoriza coisas como o estilo de jogo ofensivo, propositivo e encantador, mas não há nada que valorize mais do que títulos. O fato de muitas pessoas enxergarem no estilo de jogo de Diniz um “alto risco” de execução também é um fator que contribui para a sua rejeição, nada, porém, é mais determinante do que o fato dele nunca ter conquistado um troféu de grande relevância.

Algumas questões podem ser apontados para tentar explicar os motivos da ausência de títulos no currículo de Diniz. Porém a ideia de que o técnico não conquistou troféus relevantes porque ainda não fez nenhum trabalho bom em sua carreira não pode – em hipótese alguma – ser apontada como um fator. Primeiramente, porque o técnico de fato tem bons trabalhos em sua trajetória à beira dos gramados, e, em segundo plano, também porque, como sabemos – ou pelo menos deveríamos saber –, nem todo bom trabalho resulta em título e nem todo título é resultado de um bom trabalho. E antes de relembramos toda a trajetória do comandante é necessário dizer que todos os seus trabalhos podem devem ser analisados com uma profundidade maior do que a presente neste texto.

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Pois bem, Diniz iniciou sua carreira como técnico em 2009. E desse ano até meados da temporada de 2017, ele comandou clubes de pouca expressão nacional: Votoraty, Paulista, Botafogo de Ribeirão Preto, Atlético Sorocaba, Paraná e Audax. Nessa fase de sua carreira, Diniz conquistou um Campeonato Paulista – Série A3 e duas Copas Paulista – títulos importantes para o cenário futebolístico em que estava inserido, longes, entretanto, de serem relevantes no cenário da elite nacional. Ao longo desse período, o treinador acumulou prestígio com trabalhos em que desenvolveu as valências técnicas de diversos atletas – de diferentes idades, posições e características – e fez suas equipes performarem em alto nível, muitas vezes em um nível acima do que a qualidade dos elencos sugeriam.

O início da caminhada de Diniz em clubes de maior expressão nacional começa no Athletico-PR, em 2018. A expectativa era grande para o primeiro trabalho do técnico na elite do futebol brasileiro, mas o trabalho durou apenas seis meses. No início da temporada seguinte, Diniz assume o cargo técnico do Fluminense – a passagem do treinador no clube carioca dura até meados de agosto. Pode ser considerada a série de resultados ruins no Campeonato Brasileiro o principal motivo do encerramento desses dois trabalhos. Ainda no final de 2019, o comandante assinou com o São Paulo – o trabalho durou cerca de dezessete meses e passou longe de ter sido ruim, mas a queda acentuada de rendimento na reta final do campeonato nacional de 2021 marcou mais a passagem do que qualquer outra coisa. Santos e Vasco foram os clubes que Diniz assumiu na temporada de 2021 – as duas passagens somadas duraram cerca de seis meses e tiveram o curto tempo de duração como grande marca.

Esses trabalhos – a despeito de suas inúmeras particularidades – tiveram roteiros no mínimo similares: um início animador, em que bons resultados e o estilo de jogo vistoso empolgavam, mas que com o passar do tempo os problemas táticos apareciam – principalmente no setor defensivo – e causavam maus resultados e períodos de oscilação, aos quais Diniz não resistia por muito tempo e acabava sendo demitido. O melhor trabalho do treinador, e o que mais foge dos principais esteriótipos postos sob ele, é o atual. Diniz iniciou sua segunda passagem pelo Fluminense no final de abril de 2022- rapidamente o técnico implementou o seu estilo de jogo e com uma equipe segura defensivamente e de entrosamento coletivo destacável chegou às semifinais da Copa do Brasil e terminou o Campeonato Brasileiro na terceira colocação.

O grande desafio de Fernando Diniz nesse ano de 2023 é justamente o grande desafio de sua carreira até o momento – conquistar um título de relevância. O início desta temporada mostra – apesar da amostragem pequena de partidas e do baixo nível técnico da grande maioria dos adversários – que o técnico está no caminho para aprimorar, utilizando-se dos reforços trazidos pelo clube e do maior tempo de implementação de suas ideias no elenco, o trabalho iniciado no ano passado, o que aumenta as chances de sua equipe conquistar um título nesta temporada. E o desafio de todos nós é o de tentar fazer com que o fato de Diniz ser um técnico diferente dos demais não faça com que as nossas análises sobre o seu trabalho sejam totalmente desviadas, para o lado positivo ou negativo, dos, por assim dizer, melhores padrões de análises estabelecidos no futebol brasileiro.

Apenas queremos ter certeza!

As verdades absolutas amontoam-se em pouco mais de um mês após o início da temporada de 2023 do futebol brasileiro – a prova de que está presente em todos nós uma duradoura e perigosa patologia.



O Campeonato Carioca começou em 12 de janeiro. O Estadual de São Paulo teve início três dias depois. A bola rolou no certame de Minas Gerais pela primeira vez neste ano no dia 21 de janeiro, assim como no Rio grande do Sul. Enfim, faz pouco tempo que os principais torneios estaduais do Brasil tiveram início. Ainda assim, todos nós, sejamos torcedores ou membros da imprensa esportiva, estamos abastados de certezas sobre os grandes clubes que os disputam – em cerca de um mês, já temos a certeza de quais técnicos farão ou não um bom trabalho, sabemos qual o estilo de jogo é o melhor para cada equipe, julgamos quais contratações deram certo e quais deram errado.

Parece até algo irracional o fato de que em um ambiente tão complexo como é o ambiente do futebol brasileiro nós tenhamos tantas verdades absolutas para dizer após um mês do início da temporada. A amostragem de jogos ainda é pequena, o nível técnico dos adversários dos grandes clubes é, via de regra, baixo, os atletas estão longe de suas melhores formas físicas, os trabalhos então em fase inicial ou retornando o ritmo da temporada anterior – tudo isso impede que qualquer análise de caráter definitivo seja feita neste momento. Mas então por que será que ignoramos tudo isso? A resposta está longe de ser complexa: ignoramos porque apenas queremos ter certeza.

Muitos de nós até temos em mente que é necessário fazer ponderações em qualquer análise quando a temporada está em sua fase inicial. Entretanto, o nosso desejo por ter certeza é maior do que qualquer expressão de racionalidade que possamos demostrar. E é um desejo de fato irracional, um desejo quase que patológico – pois sabemos que não temos o que é necessário para fazer um juízo de valor a cerca de qualquer assunto que provenha dos gramados brasileiros neste momento, seja sobre o trabalho de um técnico, o estilo de jogo de uma equipe, contratações feitas por um clube, etc.

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Talvez deixar de apresentar certeza na prática de seu ofício possa trazer problemas profissionais ou até mesmo ferir o ego de quem trabalha na imprensa esportiva. Também é possível que apresentar certeza em uma conversa com camaradas em um bar ou em uma discussão nas redes sociais satisfaça o ego do torcedor, por assim dizer, comum. Bem, não há como ter certeza, mas estas são apenas algumas hipóteses que podem nos ajudar a enteder porque buscamos de forma feroz passar a sensação de certeza no que dizemos – o que é algo problemático, ainda mais no início de uma temporada.

Problemático porque, levando-se em conta a influência que a imprensa esportiva e as torcidas possuem sobre as decisões tomadas dentro dos clubes, a disseminação de supostas verdades por parte desses dois sujeitos pode ter consequências ruins. Os cartolas das agremiações, assim como qualquer outro ser humano, têm os seus pensamentos e ações condicionadas pelo ambiente em que estão inseridos – por isso que o que é dito na imprensa, nas redes sociais e nos estádios impacta diretamente em muitas das coisas que ocorrem nos clubes. Coisas essas que até podem ter um cateter positivo, mas – historicamente – manifestam-se mais de forma negativa.

A questão levantada neste texto não é o principal fator que impede o Futebol Brasileiro de dar um salto de qualidade, de ir na direção do que de melhor existe em termos táticos, organizativos e estruturais na Europa, de torna-se uma espécie de “Premier League” da América do Sul ou qualquer outra coisa nesse sentido – mas certamente também é um importante fator impeditivo. É quase que consenso que o futebol nacional poderia estar em um patamar superior ao que está, o que não é consenso, porém deveria ser, é que para atingirmos tal patamar também é importante que torcedores e jornalistas tomem cuidado com as certezas que dizem e disseminam.

Pelé é do tamanho da eternidade!

No último dia 29 de dezembro, Pelé – o Rei do Futebol – morreu aos 82 anos de idade. Os feitos do maior atleta de todos os tempos e a comoção global vista após o seu falecimento não deixam dúvidas de seu tamanho na história do Brasil e do do futebol mundial.



Creio que todo brasileiro e amante do futebol já havia imaginando em algum momento de suas vidas como seria o dia em que Pelé morreria. Aliás, não estamos falando de um simples homem, mas, sim, do maior atleta da história e mais – estamos falando de um homem que mudou o patamar do Brasil no mundo, uma espécie de “Pai Fundador” da Nação Brasileira e do que conhecemos como futebol. E o que todos imaginavam de fato aconteceu – após a notícia do falecimento de Pelé, todo o planeta parou para reverenciar Vossa Majestade.

Pelé – incontestavelmente – é o maior jogador da história do futebol. Não somente pelas três Copas do Mundo que conquistou ou pelos mais de mil e duzentos gols que fez, e também não pelos exuberantes e inesquecíves desfiles nos gramados brasileiros e de todo o mundo. Pelé é tão grandioso, principalmente, pelos sentimentos que causou, causa e continuará causando nas pessoas. A legitimidade da realeza de Pelé parece não estar no que ele fez, mas, sim, no que ele nos fez sentir – o esporte que amamos é forjado à sua imagem e semelhança.

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E é claro que é difícil olhar para o incalculável legado que Pelé nos deixou e conceber a ideia de que ele é ser humano como qualquer é um de nós – mas ele é. As polemicas e contradições que marcaram a vida do maior atleta da história nos trazem a certeza de que Edson Arantes do Nascimento era falível. Mas, dentro de campo, Pelé era tão perfeito que até quando errático era genial – alguns de seus lances que não tornaram-se gols estão mais eternizados na mente dos amantes do futebol do que qualquer tento marcado ao longo de toda história do Jogo.

Camaradas, não há como tergiversar – perder Pelé é perder coisa demais. A grandiosidade do maior jogador da história do futebol não cabe em 82 anos de existência mundana e em um caixão de madeira, e muito menos cabe neste pequeno texto. A grandiosidade de Pelé é do tamanho exato da eternidade – os seus incríveis feitos e, principalmente, as memórias, os sentimos, o intangível legado que ele nos deixou irão perpetuar-se até o fim dos tempos. Edson Arantes do Nascimento, de carne e osso, está morto. Pelé, de memórias e sentimos, é eterno.

Obrigado, Pelé! Vossa Majestade sempre será sinônimo de Futebol!

Copa do Mundo Catar 2022 – Além das quatro linhas!

A Copa do Mundo de 2022 chegou ao fim e nos deixou com a missão de não apenas exaltamos tudo de espetacular que aconteceu nos gramados do Catar, como também com a de discutirmos importantíssimos assuntos fora das quatro linhas que receberam holofotes ao longo do certame mundial.



A Copa do Mundo Catar 2022 chegou ao fim no último domingo. A maior competição de futebol do Planeta Terra não apenas consagrou a Seleção Argentina tricampeã mundial, como também nos permitiu presenciar a maior final de Copa de todos os tempos – talvez um dos maiores jogos da história do futebol –, em que Lionel Messi brilhou, gritou sem abrir a boca para o mundo inteiro ouvir que agora não falta mais nada a ser conquistado em sua carreira, credenciou-se a entrar no panteão que apenas Pelé – o eterno maior jogador de todos os tempos – está, transformou-se em um verdadeiro Deus para os argentinos e fez parecer que o futebol não é um esporte em que o imponderável impera de forma quase que brutal, mas, sim, um esporte em que o que chamamos de justiça faz-se sempre presente nos momentos necessários. E nós, torcedores da Seleção Brasileira, choramos com a eliminação nas quartas-de-final do certame.

A derrota para a Croacia na disputa por pênaltis doeu. Doeu porque tínhamos – entre outras coisas – uma expectativa muito grande de conquistar o hexacampeonato da Copa do Mundo neste ano; doeu porque a Seleção Brasileira tinha um elenco composto por jogadores de qualidade técnica superior ao do escrete europeu; doeu porque criou em nossas mentes a angustiante sensação de que existe algo que impede a Seleção Brasileira de eliminar uma seleção do velho continente em um mata-mata de Copa do Mundo; doeu porque o mágico gol de Neymar marcado no minuto 106 nos fez sorrir, chorar de felicidade e acreditar que nada tiraria a nossa vaga nas semifinais do certame mundial; também doeu porque o gol anotado por Petković no minuto 117 – sofrido justamente de uma forma que as equipes de nosso então técnico Tite não costumam sofrer – despertou em todos os brasileiros a íntima sensação de algo muito triste estava por vir – e veio.

Mas, além de trazer dor, a eliminação para a Seleção Croata lembrou a alguns brasileiros e ensinou a outros que o futebol é feito de detalhes. O tento que levou a partida para disputa por penaltis poderia ter sido evitado com pequenas mudanças no posicionamento em campo de alguns jogadores brasileiros no fatídico lance. Caso alguns ajustes fossem feitos na equipe – questão de detalhes – poderíamos ter conquistado a vitória ainda nos primeiros novena minutos de jogo. Quem analisar de forma minimamente minuciosa a eliminação do escrete brasileiro nos Mundiais de 2006, 2010 e 2018 chegará à conclusão que esses reveses podem ser creditados aos detalhes. O Brasil acostumou-se a ser refém do detalhes, a Copa do Mundo do Catar é apenas mais uma eliminação por detalhes. Mas não podemos nos dizer surpresos com esta constatação – todos nós deveríamos saber que o futebol é feito de detalhes. Aliás, a vida é feita de detalhes.

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Também é apenas um detalhe a própria participação da Seleção Brasileira na Copa Mundo, não porque não correspondemos às expectativas que todos tinham sobre nós, mas porque é muito pouco resumir uma Copa do Mundo em análises das equipes que estiveram na disputa – até mesmo tudo o que envolve a participar do escrete campeão é pequeno em relação à grandeza do certame. A Copa do Mundo do Catar – além de coroar Messi como o segundo melhor jogador da história do futebol, além de nos proporcionar uma das maiores partidas de toda a história do Jogo, além de nos permitir acompanhar a histórica campanha da Seleção de Marrocos, etc –, fez o mundo olhar para algumas questões que estão fora de um campo de futebol – as questões que de fato importam. A Copa nos faz lembrar da célebre frase do lendário ex-treinador italiano Arrigo Sacchi – “O futebol é a coisa mais importante dentre as coisas menos importantes”

É algo no mínimo animador que a Copa tenha feito alguns importante debates virem à tona – mas temos que apontar o reais problemas. Ninguém irá negar que o fato da Copa do Mundo de 2022 ter sido sediada no Catar – uma monarquia reacionária, ditatorial e que viola de forma sistemática os direitos humanos – é algo digno de todas as críticas possíveis. Mas também não podemos negar o fato de que todo o mal chamado “Ocidente” tem, no geral, boas relações com o Catar e com outras monarquias reacionárias da região. E não apenas precisamos citar isto, como também devemos tomar cuidado para que as críticas ao Catar não sirvam para nutrir o preconceito sistêmico produzido pelo “Ocidente” contra os diversos povos árabes e suas diversificadas culturas – é também importante dizer que a produção e reprodução desse preconceito por parte dos países superpotências do tal “Ocidente” tem motivos político-econômicos.

Uma outra coisa também gerou polêmica durante o certame mundial – os jogadores da Seleção Brasileira que foram filmados provando um bife folhado a ouro, avaliado em R$ 9 mil, em uma churrascaria do Catar. Muitas pessoas disseram que ao invés dos atletas degustarem um luxuoso prato – enquanto no Brasil milhões de pessoas estão em situação de insegurança alimentar – eles deveriam estar agindo para ajudar a mudar a situação de seus conterrâneos. Mas cobrar de algum indivíduo que ele tenha práticas de natureza filantrópica, por conta dele ter condições financeiras mais privilegiadas do que a esmagadora maioria pessoas de todo o mundo, não é uma solução efetiva – e muito menos definitiva – para o problema da fome no Brasil e em qualquer lugar do planeta. O que de fato precisamos é criticar a aceitação quase que geral do fato dos alimentos – algo sine qua non para existência de qualquer indivíduo – ser uma mercadoria e não algo que todos possuem o direito a ter.

Existem outras questões que também receberam uma maior atenção das pessoas com a Copa do Mundo de 2022 – como as condições de existência das mulheres no Irã, a causa palestina, o preconceito sofrido pela comunidade LGBTQIAP+ no Catar e no mundo, etc. Todas essas questões precisam ser discutidas com radicalidade, no sentido de discutirmos as raízes dos problemas. A Copa do Mundo acabou e nos deixou órfãs de sua mística grandiosidade e ansiosos para a sua próxima edição. Mas não podemos apenas aguardar – precisamos lutar para que até a próxima Copa do Mundo todo brasileiro acorde com a certeza de que terá o que comer, para que os indivíduos da comunidade LGBTQIAP+ não sejam discriminados por conta de suas orientações sexuais, para que o sistêmico preconceito contra os povos árabes tenha acabado, para que a emancipação feminina tenha sido alcançada, enfim, para que possamos dar um salto civilizacional.

Gabigol – Um príncipe predestinado à glória!

A importância de Gabigol no atual período de grandes conquistas do Flamengo e sua identificação com a torcida rubro-negra não deixam dúvidas de qual lugar o jogador ocupa na galeria de ídolos do clube.



Quando Gabigol chegou ao Flamengo, em janeiro de 2019, os torcedores rubro-negros, a imprensa e todos aqueles que acompanhavam o futebol brasileiro na época sabiam que estava chegando ao Clube da Gávea – por conta tudo o que o atleta havia demostrado com a camisa do Santos nas temporadas anteriores – um dos melhores atacantes de nosso país naquele momento, porém, dificilmente alguém poderia imaginar que quatro anos mais tarde o jogador seria o grande símbolo de uma gloriosa era e um dos maiores ídolos da história da centenária agremiação carioca

Mas ocorreu justamente o que nem os mais otimistas torcedores do clube ou qualquer outra pessoa podia prever. Gabriel tornou-se a referência técnica de um elenco que reuniu diversos atletas de altíssima qualidade técnica nas últimas quatro temporadas, encarnou o espírito da torcida rubro-negra e transformou-se em uma espécie de representante espiritual da Nação dentro de campo, decidiu tantos títulos que recebeu da torcida a alcunha de O Predestinado, representa tanto um período emblemático da história do Flamengo que é chamado pelos adeptos rubro-negros de “Príncipe da Gávea”.

E é claro que Gabigol não virou ídolo da maior torcida do país de um dia para o outro. A contrução da idolatria da Nação pelo jogador é fruto de sua importância em alguns dos momentos mais mágicos da história do clube – a final da Copa Libertadores de 2019, quando fez dois gols nos minutos finais do jogo para virar de forma heróica a partida frente ao River Plate e na decisão da competição sul-americana deste ano, quando anotou o único tento da peleja contra o Athletico-PR e garantiu novamente o título para o Flamengo – e também de seu comportamento alinhado, por assim dizer, com os valores dos torcedores – algo demonstrado em sua total entrega física e emocional dentro de campo, em seus gestos que efervescem os rubro-negros e nas suas inúmeras provocações contra equipes rivais.

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Sabemos que as estatísticas de um atleta nem sempre são um medidor relevante de idolatria, entretanto, neste caso elas são. Os números de Gabriel dimensionam de forma fidedigna a sua relevância para os torcedores nesta era de ouro do Flamengo. Até este momento, o jogador tem duzentos e nove jogos com a camisa rubro-negra, cento e trinta e três gols – doze deles marcados nas treze finais que disputou -, além de onze títulos conquistados – todos os possíveis de serem obtidos no Brasil e no continente: Campeonato Carioca, Supercopa do Brasil, Recopa Sul-Americana, Copa do Brasil, Campeonato Brasileiro e Copa Libertadores .

É fato que sintetizar às conquistas de um clube em um único jogador é algo de certa forma problemático para quem propõem-se a analisar o Jogo de forma, por assim dizer, concreta, tendo em vista que o futebol é um esporte, por natureza, coletivo. Mas a importância de Gabigol na segunda era mais importante da história do Flamengo e – sobretudo – a identificação do atleta com a torcida rubro-negra são tão grandes que fazem com que ele seja a figura que mais canaliza as recentes glórias do clube. Reitero: Gabriel é para a Nação, ao mesmo tempo, um príncipe e o seu mais fiel representante dentro de campo.

Não é possível tergiversar frente aos fatos – analisar tudo o que Gabigol fez com a camisa rubro-negra desde que chegou ao clube faz com que pensemos que não apanas não é um absurdo dizer que o atleta é o segundo maior ídolo da história do Flamengo – atrás apenas, é óbvio, de Zico – como, na verdade, é algo até coerente. Arthur Antunes Coimbrama é uma divindade para a torcida da agremiação carioca e ninguém – torcedor da instituição ou não – ousa contestar a ideia de que ele é, e provavelmente continuará sendo por toda a eternidade, o símbolo máximo do clube.

Isto porque Zico é- entre outras coisas – a grande figura do primeiro período vitorioso da história do Flamengo. O lendário camisa 10 liderou uma equipe que entre o final da década de 1970 e incio da década seguinte fez o clube deixar de ser apenas popular e passar a ser também vencedor – a Era Zico resultou na conquista de diversos Campeonatos Cariocas e Brasileiros, além de uma Copa Libertadores e um Mundial de Clubes. E Gabriel é o grande símbolo de um período em que o patamar de grandeza em que a geração de Zico pôs o clube aumentou consideravelmente – de fato, existe uma Era Gabigol. Uma Era que ainda não chegou ao fim – tudo indica que o jogador seguirá por mais anos no Flamengo e continuará escrevendo sua gloriosa trajetória na história da agremiação.

Ascensão das SAFs no futebol brasileiro – Diagnósticos certos e antídotos errados!

A atual temporada do Futebol Brasileiro ficará marcada na história, principalmente, por conta da ascensão das SAFs – a intensificação desse fenômeno indica que fizemos um diagnóstico correto sobre a situação estrutural, administrativa, econômica e esportiva dos clubes de nosso país nas últimas décadas, mas também indica que estamos aplicando um falso antídoto.



O ano de 2022 poderia ficar marcado na história do Futebol Brasileiro por alguns motivos, como a reunião de talentos sem precedentes formada pelo Flamengo e a incrível consolidação do processo do Palmeiras de Abel Ferreira, mas nada será mais marcante do que o aumento do número de clubes – principalmente os historicamente considerados gigantes – que abandonaram o modelo associativo e tornaram-se SAF- Sociedade Anônima do Futebol. A intensificação desse fenômeno em nosso país e sua aclamação por parte dos dirigentes das agremiações e da grande maioria dos membros da imprensa e torcedores mostra que fizemos um diagnóstico correto sobre a situação estrutural, administrativa, econômica e esportiva das instituições futebolísticas brasileiras nas últimas décadas, porém, também nos mostra que aplicamos um falso antídoto.

Ao olharmos para os primórdios do Futebol no Brasil, vemos que a maioria dos clubes de nosso país estruturaram-se como associação civil – uma organização privada, sem fins lucrativos e constituída pela união de sócios, sujeitos que têm a tarefa de eleger um presidente, além de representantes para Conselhos Deliberativo e Fiscal. Já a SAF- a nova forma de gerência de agremiações que está em franca ascensão em terras tupiniquins – é um tipo específico de empresa, gerado pelo Congresso Nacional no dia 6 de agosto de 2021, por intermédio da Lei 14.193/2021. Trata-se, resumidamente, de uma legislação que permite e estimula que os clubes de futebol abandonem o modelo de associação civil e adotem o modelo empresarial – ou seja, a lei autoriza e incentiva que as instituições futebolísticas do Brasil tornem-se empresas.

Existem inúmeras outras questões relacionadas às SAFs que podem ser abordadas de forma mais aprofundada, por exemplo, as de ordem jurídica e tributária. Também existe uma não desprezível produção literária acerca do tema e suas nuances – destaco os livros “Clube Empresa: abordagens críticas globais às sociedades anônimas no futebol”, do jornalista Irlan Simões, e “A Sociedade Anônima do Futebol”, do professor de direito Fernando Augusto De Vita Borges de Sales. Mas, ainda que com uma multiplicidade de aspectos únicos, o centro do debate sobre as SAFs neste texto será em relação ao fato dos clubes, ao adotarem o modelo empresarial, deixarem de ser associações sem fins lucrativos e virarem empresas. Porém, antes de problematizar esta questão, é importante historicizar o tema para entendermos um pouco do processo em curso em nosso país, sua natureza, principais sujeitos e decorrências.

Bem, é fato que o futebol nasceu e estruturou-se em sociedades capitalistas, o que significa dizer que o futebol sempre esteve inserido em um contexto social em que a busca pelo lucro esteve acima de tudo. E ainda que a razão de ser dos clubes de futebol não fosse obter lucratividade, eles sempre foram associações que de certa forma reproduziram as dinâmicas e relações do Capitalismo. No Brasil, a mudança do modelo associativo para o empresarial vem sendo defendida, principalmente, por meio de um discurso que demoniza a história das associações, dizendo que sua a natureza permitiu más gestões, que foram guiadas apenas por interesses de grupos políticos, o que teria culminando no pior momento da história de grandes agremiações do país. Tal linha discursiva também diz que o modelo empresarial irá resolver esses problema e evitar que eles ocorram novamente ao trazer para operar na gestão dos clubes pessoas “capacitadas”, “honestas”, “profissionais”, ”responsáveis”, etc.

Mas, na prática, o “fenômeno clube-empresa” nada mais é do que um fenômeno de absorção do esporte pelo Capitalismo. Note: a partir do período em que Michel Temer assumiu a Presidência da República do Brasil, em meados de 2016, houve uma notável intensificação do Neoliberalismo – doutrina econômica e política que surgiu no século XX e que pode ser entendida como a fase atual do Capitalismo, onde o sistema cria novas formas de acumulação de capital. Está claro que não é uma coincidência a lei que permite e estimula a criação das SAFs ter surgido em meio ao governo do presidente Jair Bolsonaro – o sucessor de Temer no cargo de feche do Executivo Federal e a figura mais simbólica do período mais neoliberal da história do país. Em síntese – as SAFs são produto da neoliberalização do futebol e foram viabilizadas e aclamadas pelo poder público e pelos sujeitos que querem expandir o seu próprio capital pondo-o em um ramo até então – relativamente – pouco explorado em nosso país.

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Entretanto as SAFs também são um produto de um movimento de massa de torcidas que querem ver seus clubes – entre outras coisas – com um grande poderio econômico. Até porque em um esporte onde a conquista daquilo que é considerado sucesso está atrelada às condições financeiras é compreensível que uma pessoa ou um grupo multimilionário que invista em clube seja não apenas visto com bons olhos pelos seus torcedores, mas também suplicado por grande parte deles. Esse sentimento é intensificado na mente dos torcedores quando a sua agremiação está em um momento ruim do ponto de vista esportivo e econômico – como eram os casos dos gigantes que tornaram-se empresas recentemente, Botafogo, Cruzeiro, e Vasco. Porém a adoção do modelo de gerência empresarial não garante êxito esportivo – ainda que alguns dos próprios defensores das SAFs digam isso, essa é a sensação que é transmitida às torcidas quando o assunto é tratado na imprensa, seja por jornalistas, empresários, juristas e afins.

Também é muito importante que nos debates críticos sobre às SAFs todos tenham em mente que o modelo associativo não é perfeito – longe disso. Existem diversos problemas, como a falta de responsabilidade e transparência econômica e administrativa, a disputa de grupos políticos por poder – o que geralmente tensiona de forma negativa o ambiente – e a falta de uma participação efetiva da grande massa de torcedores na gestão das agremiações. E, sem dúvidas, é algo positivo o fato de que nas últimas décadas tenhamos conseguido identificar todos esses problemas. Porém é algo negativo o fato de que a criação das SAFs tenha sido a solução encontrada, isso porque as medidas empregadas para substituir um modelo de gerência que de fato tinha problemas não deveria ser a implementação de um outro modelo que mercantiliza a paixão dos torcedores, os exclui ainda mais da gestão dos clubes e os estratifica como meros consumidores de um produto que deveria pertencer a eles – pois a real razão de ser dos clubes é a sua torcida.

É fácil notar que, até o presente momento, as SAFs gozam de grande apreço e são objeto de desejo de muitos torcedores do país, justamente por estarem à frente de processos de recuperação financeira de importantes agremiações do futebol nacional e de também carregarem consigo a promessa de investimentos de proporções consideráveis em contratações de atletas e até em infraestrutura dos clubes. Mas o cenário de satisfação geral pode mudar quando o primeiro clube-empresa de grande relevância for rebaixado, ou quando o dono de uma SAF tomar uma decisão que desagrade grande parte de uma torcida. E quando isso ocorrer, os torcedores não terão – assim como muito pouco tiveram ao longo da história – as ferramentas necessárias para realizarem uma interferência direta nas decisões que irão ditar o futuro de seu clube, visto que o modelo de gestão empresarial é excludente e centralizador por natureza.

Por fim, peço para que encarem este texto como uma espécie de ensaio, cujo o principal intuito é – de maneira relativamente superficial – apresentar, introduzir e problematizar uma questão para que, assim, possamos refletir de forma crítica sobre a mesma. Ressalto que o tema “ascensão das SAFs no Futebol Brasileiro” pode – e precisa – ser tratado com uma profundidade maior do que a presente neste escrito. Como citado acima, existe uma variedade de obras literárias que abordam o assunto com uma especificidade maior do que a presente nesta publicação. E não esqueçam – ainda que a sensação que atualmente impera seja a de que o processo de neoliberalização do esporte mais popular de nosso país e de nossa própria sociedade ocorre de forma inabalável, precisamos sempre manter em nosso imaginário coletivo que um outro futebol e um outro Brasil são possíveis – mas a viabilização de suas construções passam necessariamente pela organização popular.

Voltaremos a discutir o assunto, camaradas!

A aprovação da SAF é carta de alforria do Vasco da Gama?

O Vasco da Gama é oficialmente uma SAF. A mudança de modelo de gestão adotado pelo clube está sendo tratado pela grande maioria dos dirigentes da agremiação, torcedores cruzmaltinos e da imprensa como uma espécie de carta de alforria – muito por conta de indicar a libertação do clube das mãos daqueles que o levaram a viver o seu pior período de sua história. Mas é possível afirmar?



Quando houve a divulgação, no primeiro domingo deste mês, do resultado da votação realizada em assembleia geral pelos sócios do Vasco da Gama que acabou por aprovar a venda de 70% da SAF – Sociedade Anônima do Futebol – do clube para a 777 Partners – uma empresa estadunidense de investimento – rapidamente o sentimento de que esse acontecimento mudaria a história da agremiação para sempre espalhou-se entre dirigentes e torcedores do clube, e também por grande parte da imprensa. Era oficial, a partir daquele momento, a área de futebol do Cruz-Maltino estava nas mãos de um bilionário grupo norte-americano – o 777 Football Group, nome do projeto futebolístico da empresa.

Analisar esse tema – que certamente é um dos mais relevantes do futebol brasileiro neste ano – requer muita seriedade. Primeiramente: vejamos o que ficou acordado entre as partes. A empresa dos Estados Unidos comprometeu-se contratualmente a investir nas próximas três temporadas, no mínimo, R$ 700 milhões por 70% da SAF – os outros 30% permanecerão sob a tutela do Vasco – e a assumir a dívida de R$ 700 milhões da instituição. Da quantia destinada ao setor de futebol do clube, R$ 70 milhões foram antecipados como empréstimo-ponte, aprovado pelo Conselho Deliberativo em março deste ano.

É importante dizer que a empresa terá que injetar na SAF o valor de R$ 120 milhões ainda em 2022. Essas cifras serão usadas em contratações, no pagamento de folhas salariais e na modernização e ampliação de partes da estrutura do clube. O montante restante será investido até o ano de 2026. E a partir da temporada de 2027, o investimento estará condicionado ao desempenho esportivo. Caso a agremiação conquiste troféus importantes e atinja determinadas metas, a 777 Partners terá a obrigação de realizar um investimento mínimo fixo, corrigido pelo IPCA – Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo, elemento utilizado para observar tendências de inflação no país. E caso a equipe não alcance um desempenho esportivo satisfatório, a empresa terá de manter a agremiação, minimamente, entre os cinco maiores orçamentos do futebol nacional.

É claro que – para os torcedores de um clube que está na Série B há duas temporadas, sofreu quatro rebaixamentos desde 2008 até os dias atuais e disputou a segunda divisão do futebol nacional em cinco temporadas neste período – a notícia de que uma empresa dos Estados Unidos, que também é dona do Genoa, Standart Liège e Red Star, irá injetar um valor que beira os R$ 1 bilhão gera um gigantesco sentimento de esperança por dias melhores. Entretanto – em hipótese alguma – isso pode descartar a necessidade de uma análise do que ocorreu até este momento no processo de mudança de regime e das próximas etapas de tal processo.

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Bem, até quem propõem-se a realizar uma análise sem a influência da empolgação e do positivismo dos torcedores cruzmaltinos tem que admitir que tudo o que ficou acertado contratualmente – a transferência da dívida, os investimentos em contratações e na estrutura – irão ajudar o Vasco a sair do pior período de sua centenária história. Porém também é importante lembrar – particularmente, com o sentimento de lamentação – que o Vasco precisou passar o controle de seu futebol masculino, feminino e das categorias de base para as mãos de um grupo estadunidense por conta de décadas de irresponsabilidade e incompetência de seus gestores.

E é interessante dizer que essa é uma das particularidades do que podemos chamar de “fenômeno clube-empresa” no Brasil. Em nosso país, o que não pode ser considerado um padrão em outros lugares do mundo, os grandes clubes que estão tornando-se SAF – em maior ou menor nível –, invariavelmente, apresentam nos aspecto financeiro, esportivo e político um cenário caótico – Cruzeiro e Botafogo, agremiações que tornaram-se empresas recentemente, e, a partir de então, também o Vasco exemplificam muito bem isso.

Em síntese: com o pouco que existe de objeto de análise até este momento – o que nos limita a fazer apenas uma análise primária, logo, não definitiva –, é possível chegar a conclusão de que a 777 Partners irá assegurar a libertação do Vasco das formas de gerência que tanto o fizeram mal nos últimos anos e também pavimentará um futuro promissor ao clube. O que está acertado em contrato mostra que a intenção do projeto do grupo estadunidense é de reerguer a agremiação e capacitá-la a disputar títulos relevantes nas próximas temporadas em uma condição semelhante ou igual as que atualmente clubes como Palmeiras, Flamengo e Atlético-MG dispõem dentro do Brasil e no continente.

Por fim – ainda que tudo indique um futuro animador- insisto: será necessário analisar e julgar as ações que terão impacto na construção de tal futuro. Isto é, principalmente, o planejamento e a execução de processos, como o de montagem do novo corpo diretor do clube, o de escolha de técnico e o de reformulação de elenco. Isso para que eles sempre visem o objetivo mais primordial e imediato da instituição – voltar à elite do futebol nacional – e os de caráter, por assim dizer, mais atemporais – estar financeiramente saudável, capacitada para brigar por grandes troféus e, fundamentalmente, com perspectivas de futuro positivas.

Ensaio – O que é Espírito do Tempo do Futebol?

Todos aqueles que de alguma forma acompanham o futebol possuem suas próprias opiniões em relação aos assuntos que envolvem o Jogo. Porém existem evidências de que algo influencia não somente as opiniões sobre o esporte bretão, mas também as análises e debates. Trata-se do ETF – Espírito do Tempo do Futebol.



Zeitgeist – em uma tradução mais apurada: Espírito do Tempo – é um termo alemão, introduzido inicialmente pelo escritor Johann Gottfried von Herder, para designar o que seria o “espírito da época” ou “sinal dos tempos”. Em uma definição mais aprofundada: o conjunto do clima intelectual e cultural do mundo, numa certa época, ou as características genéricas e subjetivas de um determinado período de tempo. O conceito reforça a ideia de que existe um clima cultural e intelectual que permeia toda a atmosfera global.

O Futebol – logicamente – encontra-se dentro de nossa sociedade e, logo, está suscetível às determinações genéricas e subjetivas do Espírito do Tempo de nossa época. Porém, por ser um meio com inúmeras categorias de análise específicas e diversas outras particularidades, o Futebol tem o seu próprio Espírito do Tempo. No universo do Esporte, o termo designa – grosso modo – os conceitos, as idéias e maneiras de performar que gozam de maior aceitação e prestígio entre aqueles que integram tal universo.

O Espírito do Tempo do Futebol é relativamente dinâmico, no sentido de que – por ser uma construção histórica, e não transcendental -, ao mesmo tempo que revela-nos as tendências de maior dominância entre os agentes da vanguarda do Jogo – principais técnicos e coordenadores técnicos, além dos mais influentes Jornalistas/Comentaristas – ele também muda de acordo com os movimentos destes mesmos agentes. Em resumo, uma parcela daqueles que são influenciados pelo ETF também interferem na constituição dele próprio.

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Não é novidade para aqueles que acompanham com regularidade o futebol nacional e internacional que atualmente existe um clima contagiante de clamor por alguns aspectos do Jogo, por exemplo, proposição, posse de bola, plasticidade e vistosidade. A grande mídia esportiva – entre outros agentes – dizem dia após dia o que é “Futebol bem jogado”, “A essência do Jogo” e – por vezes – o que é válido ou não em termos de forma de performar. O papel de tal aparelho – o principal responsável pela formação da opinião das grandes massas de torcedores – é fundamental para a consolidação e reprodução do que compõem o Espírito do Tempo do Futebol.

Note: a atmosfera de cobrança criada pelo ETF é tão grande que quando uma equipe não apresenta as características “certas” – ainda que conquiste títulos ou outros objetivo esportivos – ela é vista como não tendo atingido seu potencial máximo. Em síntese, o Espírito do Tempo do Futebol – entre outras variadas implicações – deturpa nossa visão sobre o Jogo, transporta nossos anseios do âmbito do gosto pessoal para o âmbito coletivo, põem o caráter de verdade transcendental e absoluta em subjetividades, e, por negar tolerância à pluralidade de ideias, impede a realização da análise e do debate concreto.

É importantíssimo dizer que este escrito tem o caráter de ensaio – o tema necessita de um desenvolvimento mais amplo e minucioso. Não é uma tarefa simples definir precisamente o conceito de Espírito do Tempo do Futebol e visualizar com nitidez sua mecânica de funcionamento na realidade. Para realizar tal tarefa, é preciso ir em direção à fronteira do conhecimento sobre o Jogo – algo complexo em qualquer área. Outrossim, é necessário uma capacidade de abstração – na acepção filosófica do termo – não desprezível para alcançarmos um patamar mais elevado de domínio em relação ao “sujeito oculto” que interfere na estrutura do futebol brasileiro e mundial.

Voltaremos a discutir o assunto, camaradas!