Copa do Mundo 2026 – Antes do êxtase, algumas reflexões necessárias!

A poucos dias do início da Copa do Mundo de 2026, o contagiante clima que o mundial de seleções proporciona já nós tomou por completo. Mas antes do êxtase, é necessário que algumas reflexões acerca da realização do certame sejam feitas.



Entre os amantes do futebol, é raro achar alguém que não considere a Copa do Mundo o maior evento do calendário esportivo mundial. Ajuda a dimensionar essa ideia o fato de que até quem diz não acompanhar de perto o futebol, ou simplesmente não se importar com ele, é contagiado pelo inconfundível e contagiante clima que o mundial de seleções proporciona a cada quatro anos. E certamente isso ocorrerá – como já está ocorrendo – na Copa do Mundo que está a poucos dias de seu início. Mas antes de aceitarmos de bom grado o êxtase que nos tomará por completo após a bola rolar no Estádio Azteca, no próximo dia 11 de junho, para o confronto entre México e África do Sul – partida que marcará a abertura do certame – temos o compromisso de fazer algumas reflexões acerca da realização do torneio, mas especificamente sobre o seu principal anfitrião: os Estados Unidos da América.

Como é de conhecimento de todos, a Copa do Mundo que está prestes a começar será realizada em três países pela primeira vez na história – além dos EUA, México e Canadá também irão sediar o certame. Porém esse fato inédito perde relevância quando nos deparamos com a informação de que 75% das 104 partidas totais da competição irão ocorrer em território estadunidense – essa desigual divisão até pode ser alvo de críticas, mas está longe de ser um dos temas centrais ao qual devemos dedicar o nosso tempo de reflexão. Como dito anteriormente, depois que o apito inicial for dado, será difícil que algum espaço para discutir algo que perpasse as quatro linhas surja em nosso horizonte. Então este é o momento ideal para que alguns questionamentos sejam levantados.

Poderíamos começar criticando o uso propagandístico que o maior torneio de futebol do mundo está tendo para o governo dos Estados Unidos, presidido por Donald Trump. Entretanto, tal acontecimento está longe de ser inédito na história das Copas do Mundo. O que existe de mais particular, e lamentável, no contexto atual, é fato do líder norte-americano ser alguém que não hesita em falar de minorias representativas com tom altamente preconceituoso, xenófobo e racista. Para piorar, nos últimos tempos, Trump alçou o que poderia ser considerado algumas de suas formas íntimas de pensar – e de seu campo político-ideológico – ao patamar de política sistemática de governo. Nos últimos meses, o ICE, a famigerada polícia migratória do presidente, incumbiu-se de realizar truculentas abordagens e prisões em massa – algumas ações resultaram até em morte – contra grupos de imigrantes em todo território estadunidense.

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A Copa Do Mundo, que é tão especial por reunir em um determinado território milhares de torcedores de diversas nações de todos os continentes do planeta, será realizada em um país que atualmente é altamente intolerante ao que vem de fora de suas fronteiras. E quando lembramos que esse mesmo país, sob às ordens de Trump, invadiu uma nação soberana, a Venezuela, e sequestrou o seu presidente, além de ter iniciado ao lado de Israel uma guerra contra o Irã, o que trouxe de volta o fantasma de uma Guerra Mundial e instabilidade econômica para todo o planeta – tudo isso no ano em que irá sediar uma Copa do Mundo – fica ainda mais difícil aceitar toda essa situação sem inquietação.

Vale também destacar a ironia e o cinismo de entidades esportivas, governantes de países e grande imprensa – todos esses agentes falharam em tecer críticas consistentes acerca de um país com todas essas questões levantadas ser sede de um evento dessa magnitude. Muito pelo contrário, em dezembro do ano passado, o presidente da FIFA, Gianni Infantino, entregou o primeiro “Prêmio da Paz da FIFA” para Donald Trump, entre outros motivos, por conta de seus “esforços para promover a paz”. A premiação, criada pela entidade com o intuito de reconhecer ações que unem pessoas ao redor do planeta, caiu nas mãos justamente de alguém que age demasiadamente na contramão da realização de ações dessa natureza.

Para além desse tragicômico acontecimento, é lamentável também a ausência de relevantes questionamentos e reações diplomáticas sobre os grandes anfritriões do certamente mundial – algo ironicamente distinto do que vimos nos mundiais da Rússia e Catar – e da falta de potência, ou de vontade, dos grandes veículos de mídia em realizar a ética missão de questionar e esmiuçar esses importantes assuntos – mais uma prova de como cada vez mais as questões comerciais ditam os caminhos do futebol. Por fim, não sejamos hipocritas, é claro que após a bola rolar, todos nós iremos nos deleitar com grandes atuações, partidas emblemáticas e histórias que apenas a Copa do Mundo é capaz de gerar. E tem que ser assim. Mas será importante viver todo esse êxtase com um quê de senso crítico.

Endrick – Nascido para brilhar!

Os feitos de Endrick assumiram uma proporção tão grande que nos obrigam a ignorar a barreira do tempo e assumir como certeza a possibilidade do jogador alcançar o patamar de uma estrela do futebol mundial.



Todos amantes do futebol em algum momento de suas vidas conhecerem a história de algum jogador que todos tinham a convicção de que seria uma estrela do futebol mundial, mas que ao longo de sua carreira não conseguiu atingir tal status – e isso ocorre por inúmeros fatores, até porque o futebol é um meio extremamente dinâmico em que estabelecer verdades absolutas tem pouca utilidade prática e nossas supostas certezas duram pouco tempo. Mas ainda que estejamos cientes dessas histórias, quando vemos um talento fora de série somos imediatamente impulsionados a crer que estamos diante de um atleta geracional ou algo do tipo – e nesses momentos precisamos lembrar que por mais que tudo indique que algo possa acontecer, somente com o passar do tempo que poderemos ter a certeza de que realmente aconteceu.

Entretanto, o futebol parece desafiar a lógica em alguns momentos e, por vezes, faz com que algumas coisas extrapolem o campo da possibilidade – não é que possa ou não acontecer, é apenas uma questão de tempo até que aconteça. E o que e melhor personifica esse sentimento na atualidade é o caso de Endrick. É difícil achar alguém nos dias atuais que não concorde que nos próximos anos o jovem de dezessete anos de idade estará desfilando nos gramados europeus e encantando o mundo com o seu raríssimo talento. E não é uma ingenuidade ou teimosia a nossa inapelável crença em que Endrick está predestinado à glória, pois tudo nos leva a crer nisso – a representatividade dos seus gols, as suas comemorações icônicas, a gestão de sua carreira, a sua elevadíssima qualidade técnica e até mesmo a sua trajetória de vida.

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E parece ser indispensável realizar uma recapitulação, ainda que breve, dessa trajetória. Endrick nasceu em meados de 2006, quatro anos depois começou a ter os primeiros contatos com o futebol e, após uma infância permeada de sacrifícios próprios e familiares, conseguiu ingressar, aos dez anos de idade, no juvenil do Palmeiras. O jogador rapidamente tornou-se um fenômeno nas categorias de base do clube, o seu talento era tão grande que o possibilitou sempre atuar em categorias acima de sua idade, marcando gols, conquistando títulos e atingindo recordes – o que resultou, entre outras coisas, em sua astronômica venda para o Real Madrid, ainda aos dezesseis anos de idade. Não apanas todo o seu repertório técnico, como também o carisma, a originalidade e a identificação com os torcedores alviverdes e canarinhos foram aspectos responsáveis por forjar o imaginário coletivo dos brasileiros sobre Endrick – todos passaram a tratar o jovem como um atleta especial, a querer conhecer a sua história e assitir às suas performances.

Fatores como a elevada maturidade corporal, inteligência emocional e qualidade técnica fizeram com que o jogador personificasse perfeitamente o termo “acima da média” – Endrick, apesar de nem sequer ter completado a maioridade, sempre atuou com protagonismo, conquistou títulos de caráter estadual e nacional, marcou tentos decisivos, acumulou atuações emblemáticas, conquistou o seu espaço na Seleção Brasileira, atingiu o patamar de maior promessa do futebol brasileiro dos últimos anos, tornou-se a maior revelação da história do Palmeiras e um jogador admirado por torcedores de todo o país. E toda essa história de Endrick no futebol, dos seus incríveis números nas categorias de base até os seus impressionantes feitos em sua curta trajetória como jogador profissional, fazem com que o sucesso pareça ser o seu destino natural.

Mas talvez ainda seja importante não abandonar completamente uma linha de análise de tom, por assim dizer, racionalista. É fato que o atleta, por tudo o que faz dentro de campo e por conta de tudo o que passou até chegar ao patamar atual, não apenas deve, como também merece atingir o estrelato no esporte. Entretanto, temos que lembrar que meritocracia não existe. Nada depende apenas de um indivíduo. Não na vida, onde os contextos, a sociedade e a família importam demais. Nem no futebol, onde a sorte, o certame, o técnico e a equipe interferem muito. Endrick, de fato, ultrapassou muitas barreiras para torna-se um prodígio – estamos falando de um jovem preto que a nossa sociedade racista não vitimou, que o tráfico não recrutou, que teve um pai presente na criação e que tornou-se um jogador profissional. Porém, ainda que a glória esteja esperando-o, assumir o seu lugar na história do futebol ainda dependerá de fatores inerentes a um esporte coletivo e a uma sociedade.

Porém , caso a vida de Endrick siga o curso natural, também não será uma certeza tediosa saber que o jogador um dia chegará ao lugar onde todos nós sabemos que é seu por direito. Muito pelo contrário – será um privilégio poder acompanhar um jovem preto construir o seu reinado no futebol. Presenciamos Endrick colocar-se à frente do seu tempo ao transpassar com facilidade todas as etapas convencionais de formação de atletas nas categorias de base, vimos um menino de dezessete anos de idade ser decisivo e até referência técnica em uma equipe absolutamente consolidada e histórica como o Palmeiras de Abel Ferreira e também desfrutamos de seus gols com a camisa da Seleção Brasileira nos lendários estádios de Wembley e Santiago Bernabéu. E ainda tem muito mais por vir, das gloriosas noites européias às inesquecíveis atuações em Copas do Mundo.

Neymar, nós também somos o que perdemos!

Lembrar do jogador de futebol Neymar é, sobretudo, lembrar de algo que aparenta não existir mais, é como ter saudades de um finado. Mas também pode ser – e precisa ser – uma oportunidade de lembrarmos que nós também somos o que perdemos, que podemos voltar a ser o que um dia fomos.



Copa do Mundo Catar 2022. Quartas de final. Era o último minuto do primeiro tempo da prorrogação, Brasil e Croácia ainda não haviam mexido no marcador. E então Neymar faz linda tabela com Rodrygo e Lucas Paquetá na entrada da área, o camisa 10 recebe de frente para o goleiro, o dribla facilmente e chuta a bola para dentro do gol. Neymar acabara de marcar um tento antológico e que parecia ser o mais importante de sua carreira, um tento que poderia mudar não apenas a história do próprio jogador, como também da Seleção Brasileira e até mesmo do futebol mundial. Talvez não ajude tanto a dimensionar o significado de tal gol, mas é válido dizer que ele é até os dias atuais o mais comemorado na vida deste que vos escreve – um momento eternizado sobre as areias da praia de Copacabana, na FIFA Fan Fest.

Porém cerca de meia hora depois desse evento canônico, o sentimento que impera entre todos os brasileiros que estavam no Estádio da Cidade da Educação, na praia mais famosa do mundo ou em qualquer outro lugar é o de tristeza – a Croácia eliminou o Brasil nos pênaltis e avançou às semifinais do mundial de seleções. O evento citado é apenas mais um entre tantos outros que parecem ter impedido Neymar de alcançar a grandiosidade que o seu talento poderia o proporcionar, mas talvez seja o mais simbólico, pois representa perfeitamente o espírito do atleta, que sempre que esteve em campo tentou levar a sua equipe à vitória. O grande contraste com os dias atuais é que esse Neymar parace estar morto, não vemos mais o jogador que encantava multidões nos estádios mundo a fora, em seus olhos não há mais a sede por grandes conquistas ou por estar na elite do futebol.

Talvez nem todos tenham a coragem, pelo menos atualmente, para admitir isto, mas a verdade é que todo amante do futebol apaixonou-se por Neymar em algum momento de suas vidas. Seja pelo garoto franzino e de cabaça raspada que nasceu para o mundo do futebol profissional na cidade de Santos, um menino flutuante, alegre, impetuoso e imparável nos gramados brasileiros, e que amadureceu em campo jogo após jogo, conquistou a Copa Libertadores, o Prêmio Puskás e a notável alcunha de hors concours. Ou o ainda jovem que chegou em Barcelona um jogador completo, brindou a Europa com subsequentes deslumbrantes performances, venceu a Liga dos Campeões e alcançou de forma incontestável à realeza do futebol de nossa época.

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Era possível apaixonar-se até mesmo pelo Neymar que partiu rumo à Páris com missão de liderar o PSG à conquista do velho continente, e, apesar de ter falhado, nunca desistiu de manter-se encantador em campo. É impossível negar que o atleta chegou a brilhar com a camisa desses três clubes – e também com a camisa da Seleção Brasileira –, mas ao mesmo tempo é difícil negar que ele poderia ter atingido um nível ainda maior. E a transferência do jogador para o Al-Hilal, da Arábia Saudita, em agosto do ano passado, escancara a sua acentuada espiral de queda. Tal espiral é creditada principalmente pela forma como Neymar conduziu a sua vida privada e sua carreira. As festanças e irregularidades financeira, a acusação de estupro e assédio sexual, e a falta de profissionalismo em alguns momentos, são fatores que de fato interferiram, mas nada chegou perto de ser tão determinante quanto as lesões.

O jornalista e escritor Sergio Vázquez Jodar certa vez escreveu – “Existem muitos mundos paralelos em nossas vidas: aviões que não pegamos, e-mails que apagamos ou noites que ficamos em casa. Em todos os mundos paralelos em que Neymar não se machuca, ele ganha a bola de ouro!”. Ao lembrarmos das muitas memoráveis performances nos grandes jogos e estádios, dos incríveis dribles desconcertantes e desmoralizantes, e dos históricos e fantásticos gols do jogador é difícil não concordar com a afirmação de Jodar. Neymar pode ter cometido muitos erros ao longo da carreira, mas são as lesões que nos privaram de ver o que poderia ser um dos maiores jogadores da história do futebol,  foram os longos períodos afastado dos gramados que impediram um príncipe de torna-se rei.

As diversas lesões que chegaram a tirar o atleta da disputa de uma Copa do Mundo, das fases eliminatórias de algumas edições de Champions League e de muitos e muitos jogos ao longo de sua carreira não costumam receber a mesma relevância nos debates esportivos sobre o jogador como os seus problemas com a justiça, suas postagens em redes sociais ou suas idas à baladas e carnavais. E talvez esteja certo quem diz que o jogador não precisa mais do futebol, que ele não tem mais o interesse em manter-se atuando em alto nível. Mas também é certo dizer que o futebol até pode não precisar de Neymar para ser o esporte mais espetacular do planeta, mas certamente o merece. É uma necessidade espiritual ver por pelo menos mais alguns instantes o jogador flutuar em campo, deixar adversários no chão e marcar gols que desafiam a razão.

Por fim, ainda que atualmente não existam muitos indícios que nos possibilitem acreditar fielmente nesta ideia, é preciso dizer que o atleta de trinta e dois anos de idade ainda pode voltar a encantar o mundo, que ainda pode ser lembrado unicamente por seu genuíno talento, por sua invejável capacidade de decisão e diversas conquistas. Nós também somos o que perdemos, os vôos em que não embarcamos, as festas não idas, os encontros cancelados, os amores não correspondidos, os chutes que batem na trave e não entram. E Neymar não é diferente de nós. Ele ainda é a alegria e ousadia dos tempos de Santos, a nobreza ímpar da época de Barcelona, o brilhantismo com a camisa do escrete nacional, o deslumbre de liderança das jornadas em Paris e todos os dribles e gols que nos emocionaram durante anos.