Apenas queremos ter certeza!

As verdades absolutas amontoam-se em pouco mais de um mês após o início da temporada de 2023 do futebol brasileiro – a prova de que está presente em todos nós uma duradoura e perigosa patologia.



O Campeonato Carioca começou em 12 de janeiro. O Estadual de São Paulo teve início três dias depois. A bola rolou no certame de Minas Gerais pela primeira vez neste ano no dia 21 de janeiro, assim como no Rio grande do Sul. Enfim, faz pouco tempo que os principais torneios estaduais do Brasil tiveram início. Ainda assim, todos nós, sejamos torcedores ou membros da imprensa esportiva, estamos abastados de certezas sobre os grandes clubes que os disputam – em cerca de um mês, já temos a certeza de quais técnicos farão ou não um bom trabalho, sabemos qual o estilo de jogo é o melhor para cada equipe, julgamos quais contratações deram certo e quais deram errado.

Parece até algo irracional o fato de que em um ambiente tão complexo como é o ambiente do futebol brasileiro nós tenhamos tantas verdades absolutas para dizer após um mês do início da temporada. A amostragem de jogos ainda é pequena, o nível técnico dos adversários dos grandes clubes é, via de regra, baixo, os atletas estão longe de suas melhores formas físicas, os trabalhos então em fase inicial ou retornando o ritmo da temporada anterior – tudo isso impede que qualquer análise de caráter definitivo seja feita neste momento. Mas então por que será que ignoramos tudo isso? A resposta está longe de ser complexa: ignoramos porque apenas queremos ter certeza.

Muitos de nós até temos em mente que é necessário fazer ponderações em qualquer análise quando a temporada está em sua fase inicial. Entretanto, o nosso desejo por ter certeza é maior do que qualquer expressão de racionalidade que possamos demostrar. E é um desejo de fato irracional, um desejo quase que patológico – pois sabemos que não temos o que é necessário para fazer um juízo de valor a cerca de qualquer assunto que provenha dos gramados brasileiros neste momento, seja sobre o trabalho de um técnico, o estilo de jogo de uma equipe, contratações feitas por um clube, etc.

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Talvez deixar de apresentar certeza na prática de seu ofício possa trazer problemas profissionais ou até mesmo ferir o ego de quem trabalha na imprensa esportiva. Também é possível que apresentar certeza em uma conversa com camaradas em um bar ou em uma discussão nas redes sociais satisfaça o ego do torcedor, por assim dizer, comum. Bem, não há como ter certeza, mas estas são apenas algumas hipóteses que podem nos ajudar a enteder porque buscamos de forma feroz passar a sensação de certeza no que dizemos – o que é algo problemático, ainda mais no início de uma temporada.

Problemático porque, levando-se em conta a influência que a imprensa esportiva e as torcidas possuem sobre as decisões tomadas dentro dos clubes, a disseminação de supostas verdades por parte desses dois sujeitos pode ter consequências ruins. Os cartolas das agremiações, assim como qualquer outro ser humano, têm os seus pensamentos e ações condicionadas pelo ambiente em que estão inseridos – por isso que o que é dito na imprensa, nas redes sociais e nos estádios impacta diretamente em muitas das coisas que ocorrem nos clubes. Coisas essas que até podem ter um cateter positivo, mas – historicamente – manifestam-se mais de forma negativa.

A questão levantada neste texto não é o principal fator que impede o Futebol Brasileiro de dar um salto de qualidade, de ir na direção do que de melhor existe em termos táticos, organizativos e estruturais na Europa, de torna-se uma espécie de “Premier League” da América do Sul ou qualquer outra coisa nesse sentido – mas certamente também é um importante fator impeditivo. É quase que consenso que o futebol nacional poderia estar em um patamar superior ao que está, o que não é consenso, porém deveria ser, é que para atingirmos tal patamar também é importante que torcedores e jornalistas tomem cuidado com as certezas que dizem e disseminam.

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