Copa do Mundo 2026 – Antes do êxtase, algumas reflexões necessárias!

A poucos dias do início da Copa do Mundo de 2026, o contagiante clima que o mundial de seleções proporciona já nós tomou por completo. Mas antes do êxtase, é necessário que algumas reflexões acerca da realização do certame sejam feitas.



Entre os amantes do futebol, é raro achar alguém que não considere a Copa do Mundo o maior evento do calendário esportivo mundial. Ajuda a dimensionar essa ideia o fato de que até quem diz não acompanhar de perto o futebol, ou simplesmente não se importar com ele, é contagiado pelo inconfundível e contagiante clima que o mundial de seleções proporciona a cada quatro anos. E certamente isso ocorrerá – como já está ocorrendo – na Copa do Mundo que está a poucos dias de seu início. Mas antes de aceitarmos de bom grado o êxtase que nos tomará por completo após a bola rolar no Estádio Azteca, no próximo dia 11 de junho, para o confronto entre México e África do Sul – partida que marcará a abertura do certame – temos o compromisso de fazer algumas reflexões acerca da realização do torneio, mas especificamente sobre o seu principal anfitrião: os Estados Unidos da América.

Como é de conhecimento de todos, a Copa do Mundo que está prestes a começar será realizada em três países pela primeira vez na história – além dos EUA, México e Canadá também irão sediar o certame. Porém esse fato inédito perde relevância quando nos deparamos com a informação de que 75% das 104 partidas totais da competição irão ocorrer em território estadunidense – essa desigual divisão até pode ser alvo de críticas, mas está longe de ser um dos temas centrais ao qual devemos dedicar o nosso tempo de reflexão. Como dito anteriormente, depois que o apito inicial for dado, será difícil que algum espaço para discutir algo que perpasse as quatro linhas surja em nosso horizonte. Então este é o momento ideal para que alguns questionamentos sejam levantados.

Poderíamos começar criticando o uso propagandístico que o maior torneio de futebol do mundo está tendo para o governo dos Estados Unidos, presidido por Donald Trump. Entretanto, tal acontecimento está longe de ser inédito na história das Copas do Mundo. O que existe de mais particular, e lamentável, no contexto atual, é fato do líder norte-americano ser alguém que não hesita em falar de minorias representativas com tom altamente preconceituoso, xenófobo e racista. Para piorar, nos últimos tempos, Trump alçou o que poderia ser considerado algumas de suas formas íntimas de pensar – e de seu campo político-ideológico – ao patamar de política sistemática de governo. Nos últimos meses, o ICE, a famigerada polícia migratória do presidente, incumbiu-se de realizar truculentas abordagens e prisões em massa – algumas ações resultaram até em morte – contra grupos de imigrantes em todo território estadunidense.

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A Copa Do Mundo, que é tão especial por reunir em um determinado território milhares de torcedores de diversas nações de todos os continentes do planeta, será realizada em um país que atualmente é altamente intolerante ao que vem de fora de suas fronteiras. E quando lembramos que esse mesmo país, sob às ordens de Trump, invadiu uma nação soberana, a Venezuela, e sequestrou o seu presidente, além de ter iniciado ao lado de Israel uma guerra contra o Irã, o que trouxe de volta o fantasma de uma Guerra Mundial e instabilidade econômica para todo o planeta – tudo isso no ano em que irá sediar uma Copa do Mundo – fica ainda mais difícil aceitar toda essa situação sem inquietação.

Vale também destacar a ironia e o cinismo de entidades esportivas, governantes de países e grande imprensa – todos esses agentes falharam em tecer críticas consistentes acerca de um país com todas essas questões levantadas ser sede de um evento dessa magnitude. Muito pelo contrário, em dezembro do ano passado, o presidente da FIFA, Gianni Infantino, entregou o primeiro “Prêmio da Paz da FIFA” para Donald Trump, entre outros motivos, por conta de seus “esforços para promover a paz”. A premiação, criada pela entidade com o intuito de reconhecer ações que unem pessoas ao redor do planeta, caiu nas mãos justamente de alguém que age demasiadamente na contramão da realização de ações dessa natureza.

Para além desse tragicômico acontecimento, é lamentável também a ausência de relevantes questionamentos e reações diplomáticas sobre os grandes anfritriões do certamente mundial – algo ironicamente distinto do que vimos nos mundiais da Rússia e Catar – e da falta de potência, ou de vontade, dos grandes veículos de mídia em realizar a ética missão de questionar e esmiuçar esses importantes assuntos – mais uma prova de como cada vez mais as questões comerciais ditam os caminhos do futebol. Por fim, não sejamos hipocritas, é claro que após a bola rolar, todos nós iremos nos deleitar com grandes atuações, partidas emblemáticas e histórias que apenas a Copa do Mundo é capaz de gerar. E tem que ser assim. Mas será importante viver todo esse êxtase com um quê de senso crítico.

Vinicius Jr, Ballon d’Or e Racismo – Algumas breves considerações

O fato de Vinicius Jr não ter conquistado a Ballon d’Or, apesar de ostentar merecidamente o status de grande favorito antes da realização da premiação, abre um oportuno espaço para que sejam feitas – no mínimo – algumas breves considerações acerca do papel central do racismo no acontecimento em questão.



Nós últimos dias de outubro deste ano, grande parcela da comunidade do futebol chocou-se com o anúncio de que Vinicius Jr perdeu o prêmio de melhor jogador do mundo da temporada 2023/24 para o volante espanhol Rodri – o atleta brasileiro, por tudo que fez no período, era o grande favorito. Mas antes de começar a tecer algumas breves considerações sobre as decorrências do fato de Vinicius Jr não ter conquistado a Ballon d’Or é preciso parabeniza-lo por conseguir manter durante os últimos anos um grande nível de atuação com a camisa do principal clube do mundo e disputando a principal competição de clubes do planeta – apesar do incalculável sofrimento mental que o racismo causa na mente de quem o sofre, seja por meio de ofensas pessoais ou por estar inserido em meios sociais que operam a partir de sua lógica. Dito isso, não há razões para tergiversar – tem que ser creditado ao racismo o papel de principal responsável por Vinicius não ter sido eleito o melhor jogador do mundo da temporada 2023/24.

Entretanto, sem nunca perder de vista o papel do racismo como pano de fundo, é preciso debater algumas outras circunstâncias do futebol na atualidade que podem nos ajudar a entender por que o jogador brasileiro não conquistou a Ballon d’Or. Em primeira análise: todos aqueles que acompanharam o futebol nos últimos quinze anos sabem que Messi e Cristiano Ronaldo dividiram praticamente sozinhos as premiações de melhor jogador da temporada durante todo esse período. E esses dois atletas não apenas, por assim dizer, privatizaram esses prêmios como também elevaram o patamar de disputa a um nível surreal, por banalizarem, entre outros diversos feitos surpreendentes, ter uma média de mais de um gol por jogo ao longo de toda uma temporada e acumularem atuações emblemáticas partida após partida.

É claro que não é nenhum demérito não estar no nível de Messi e Cristiano Ronaldo – dois dos, ao menos, cinco maiores jogadores da história do futebol – mas é preciso ter em mente que Vinicius Jr e qualquer outro atleta que postule o prêmio de melhor jogador do mundo terá o seu nível de performance e números obtidos comprados com esses dois jogadores, de forma injusta e até involuntária, diga-se de passagem. O fim da era dominada por Lionel e Cristiano deixou esse sentimento de que para ser um legítimo melhor jogador do mundo é preciso ter mais gols do que jogos ao longo do ano, conquistar os principais títulos da temporada e ainda ser artilheiro desses certames, e caso esse nível de dominância não seja atingindo, o vencedor do prêmio estará sempre sujeito a questionamentos.

Nos acostumamos a ver dois extraclasse duelando no mais alto nível pela conquista do prêmio de melhor jogador do mundo e suas ausências caudadas pela insuperável passagem do tempo nos impede de reconhecer qualidades e méritos nos atletas que passem a ocupar a lacuna deixada no topo do futebol mundial – é preciso tentar corrigir essas distorções. Iniciando a segunda análise: é o momento de pensar em o que um jogador deveria fazer para conquistar esses prêmios individuais após o fim da era Messi e Cristiano Ronaldo. Grande maioria das pessoas que acompanham o futebol acreditam que o jogador que, ao longo de uma temporada, alie grandes atuações individuais com um bom desempenho de sua equipe, obtenha boas estatísticas em suas funções dentro de campo e títulos de alguma relevância seja merecedor de conquistar a Ballon d’Or ou qualquer outro prêmio da mesma natureza.

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Seguir essa linha de pensamento parece ser algo natural, entretanto, é uma grande ingenuidade nossa achar que o processo de escolha do vencedor também opera a partir desse raciocínio. Prêmios individuais de grande prestígio como o entregue pela revista France Football são muito mais políticos do que tecnicistas e meritocráticos – um olhar atencioso para o histórico de eleições desse tipo nos faz chegar a essa conclusão. E ao tomarmos ciência disso e relembramos do histórico de práticas, por assim dizer, políticas de Vinicius Jr desde que firmou-se como uma estrela do Real Madrid fica explicito como as dinâmicas da sociabilidade racista impediram o atacante de sagrar-se vencedor da Ballond’Or. Ao longo da temporada de 2023/24 nenhum outro jogador do mundo preencheu tão bem os tais requisitos que um legítimo vencedor do prêmio, teoricamente, deve apresentar.

Vinicius, no período, conquistou , além de outros três títulos, a Liga dos Campeões da Europa, a principal competição de clubes do planeta, com atuações memoráveis nas fases decisivas do certame – inclusive marcando um gol na finalíssima -, o jogador também atingiu a marca de quase quarenta participações em gols e mostrou-se o mais desequilibrante de sua equipe e o mais dominante de sua posição no mundo. Mas como é de conhecimento geral, ou pelos menos deveria ser, uma sociedade racista tem dificuldade em premiar e reconhecer mérito nos feitos de uma pessoa preta – outrossim, é exigido muito mais de alguém de pele escura para provar suas virtudes, capacidades e valor do que de uma pessoa de pele clara. E, acima de tudo, uma sociedade racista não tolera que um homem ou mulher preta conteste insistentemente e enfrente o racismo – justamente o que Vinicius Jr faz desde os últimos anos.

Em suma, Vinicius Jr reedita o que está escrito em um trecho do livro Pele Negra, Máscaras Brancas, do filósofo político Frantz Fanon: “O mundo branco, o único honesto, rejeitava minha participação. De um homem exige-se uma conduta de homem; de mim, uma conduta de homem negro – ou pelo menos uma conduta de preto. Eu acenava para o mundo e o mundo amputava meu entusiasmo. Exigiam que eu me confinasse, que encolhesse”. Está claro, então, que Vinicius não venceu a Ballond’Or porque prêmios como esse não são feitos para serem vencidos por pessoas como ele – alguém que nunca calou-se diante das dezenas de ataques racistas sofridos por parte de jogadores e torcedores rivais, e até mesmo de membros da imprensa e de confederações de futebol. Para finalizar – esperavam submissão, então Vinicius mostrou-se sublime; ansiavam por silêncio, então Vinicius deixou todos sem palavras com o seu talento; era requisitado que a máscara branca fosse posta, na contramão, Vinicius tornou-se o maior símbolo da luta antirracista no futebol contemporâneo – apesar de todas limitações de discurso e prática.

Hulk – A história de um herói, em preto e branco!

Hulk é um daqueles jogadores que sempre sonhamos que um dia vista a camisa de nosso clube do coração – um atacante goleador e de capacidade técnica privilegiada, um defensor implacável dos interesses de sua equipe dentro de campo, alguém que encarna perfeitamente o espírito do torcedor, um verdadeiro herói.



Quando surgiu a notícia de que Givanildo Vieira de Sousa, o Hulk, aceitou a proposta do Atlético-MG, nos últimos dias de janeiro de 2021, para vestir a camisa do clube, surgiram mais dúvidas do que certezas acerca da contratação. Por um lado, ninguém poderia negar que a agremiação de Belo Horizonte estava adquirindo um atleta de alta qualidade técnica e com um período no futebol europeu marcado pelo alto número de gols e conquistas, mas, por outro lado, era difícil tirar a razão de quem fazia contestações, levantando questões como o alto salário que o jogador iria receber, o fato de ter trinta e quatro anos de idade na ocasião e estar vindo de quatro temporadas consecutivas atuando no futebol chinês. Além disso, a memória coletiva que atrelava a imagem do jogador ao fracasso da Seleção Brasileira na Copa do Mundo de 2014 também era algo que ajudava a criar uma rejeição prévia a sua aquisição.

Atualmente, e em contraste com o cenário de incertezas de três anos atrás, não restam dúvidas de que a contratação de Hulk é uma das mais assertivas da história do Atlético-MG. O jogador, em um período relativamente curto, tornou-se uma lenda da história do clube e criou uma identificação ímpar com a torcida atleticana. Hulk, durante as últimas quatro temporadas, tem sido o grande símbolo de uma equipe vitoriosa no cenário nacional e completamente dominante no âmbito estadual, o grande rosto de um elenco que é um dos principais da América do Sul e que é responsável por alçar os atleticanos ao patamar dos grandes favoritos na disputa por qualquer competição nacional ou internacional. Talvez seja exagero dizer que existe um Atlético-MG antes da chagada de Hulk e um após a sua chegada, mas, ao menos, parece claro que o jogador inaugurou uma nova era na história recente do clube.

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Porém Hulk não tornou-se sinônimo de Atlético-MG do dia para a noite, muito pelo contrário, a trajetória do atacante é rica e narra uma verdadeira história de herói, com tons pretos e brancos. Isso porque o jogador chegou ao clube em um contexto bem específico: Hulk desembarcou do lado alvinegro de Belo Horizonte e deparou-se com uma agremiação que vinha de uma temporada em que sofreu, assim como todo o futebol brasileiro, com os peculiares efeitos da pandemia de Covid-19 e em que não conseguiu corresponder totalmente aos investimentos milionários feitos pelo grupo de empresários conhecidos como os “4R’s”. Eram tempos em que o torcedor atleticano ansiava para que sua equipe voltasse a ter o protagonismo nacional e internacional visto no início da década anterior e não queriam ter como única fonte de alegria a então péssima fase em que o arquirrival estava.

Em meio a esse cenário, a contratação de Hulk era uma das importantes ações feitas pelos dirigentes atleticanos que serviram para injetar ânimo na veia da torcida para a temporada de 2021, assim como o aumento do aporte financeiro do famigerado grupo de empresários e a contratação do técnico Cuca. Em verdade, nada teve mais magnitude do que a chega do atleta. Hulk liderou uma equipe que encantou o país e entrou para história do clube ao conquistar a Copa do Brasil e, principalmente, por encerrar o jejum da agremiação mineira de meio século sem conquistar o Campeonato Brasileiro – o atacante terminou os dois certames como melhor jogador e artilheiro. Nas duas temporadas seguintes e até o momento da atual temporada, o Atlético-MG, apesar de não ter vencido nenhum título de grande relevância nacional ou internacional, continuou mantendo domínio em seu Estado, sendo competitivo no cenário brasileiro e da América do Sul e tendo Hulk como grande símbolo de uma era próspera.

O tal Givanildo, em suma, é um daqueles jogadores que sempre sonhamos que um dia vista a camisa de nosso clube do coração – um atacante com faro de gol e qualidade técnica invejável, capaz de conduzir uma equipe às grandes conquistas, sendo não apenas a referência técnica, como também um defensor implacável de seus interesses dentro de campo e alguém que encarna perfeitamente o espírito do torcedor. Os jogadores com esse perfil, ao longo de toda a história do futebol, sempre desempenharam um papel importante em ajudar a construir e manter a popularidade e a mística do esporte, e são ainda mais importantes na atualidade, onde o futebol em geral – e principalmente o brasileiro – carece de figuras com a qual o torcedor consiga criar vínculos fortes e duradouros. Bem aventurado, então, é a torcida atleticana, que tem alguém como Hulk defendendo as suas cores.

Endrick – Nascido para brilhar!

Os feitos de Endrick assumiram uma proporção tão grande que nos obrigam a ignorar a barreira do tempo e assumir como certeza a possibilidade do jogador alcançar o patamar de uma estrela do futebol mundial.



Todos amantes do futebol em algum momento de suas vidas conhecerem a história de algum jogador que todos tinham a convicção de que seria uma estrela do futebol mundial, mas que ao longo de sua carreira não conseguiu atingir tal status – e isso ocorre por inúmeros fatores, até porque o futebol é um meio extremamente dinâmico em que estabelecer verdades absolutas tem pouca utilidade prática e nossas supostas certezas duram pouco tempo. Mas ainda que estejamos cientes dessas histórias, quando vemos um talento fora de série somos imediatamente impulsionados a crer que estamos diante de um atleta geracional ou algo do tipo – e nesses momentos precisamos lembrar que por mais que tudo indique que algo possa acontecer, somente com o passar do tempo que poderemos ter a certeza de que realmente aconteceu.

Entretanto, o futebol parece desafiar a lógica em alguns momentos e, por vezes, faz com que algumas coisas extrapolem o campo da possibilidade – não é que possa ou não acontecer, é apenas uma questão de tempo até que aconteça. E o que e melhor personifica esse sentimento na atualidade é o caso de Endrick. É difícil achar alguém nos dias atuais que não concorde que nos próximos anos o jovem de dezessete anos de idade estará desfilando nos gramados europeus e encantando o mundo com o seu raríssimo talento. E não é uma ingenuidade ou teimosia a nossa inapelável crença em que Endrick está predestinado à glória, pois tudo nos leva a crer nisso – a representatividade dos seus gols, as suas comemorações icônicas, a gestão de sua carreira, a sua elevadíssima qualidade técnica e até mesmo a sua trajetória de vida.

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E parece ser indispensável realizar uma recapitulação, ainda que breve, dessa trajetória. Endrick nasceu em meados de 2006, quatro anos depois começou a ter os primeiros contatos com o futebol e, após uma infância permeada de sacrifícios próprios e familiares, conseguiu ingressar, aos dez anos de idade, no juvenil do Palmeiras. O jogador rapidamente tornou-se um fenômeno nas categorias de base do clube, o seu talento era tão grande que o possibilitou sempre atuar em categorias acima de sua idade, marcando gols, conquistando títulos e atingindo recordes – o que resultou, entre outras coisas, em sua astronômica venda para o Real Madrid, ainda aos dezesseis anos de idade. Não apanas todo o seu repertório técnico, como também o carisma, a originalidade e a identificação com os torcedores alviverdes e canarinhos foram aspectos responsáveis por forjar o imaginário coletivo dos brasileiros sobre Endrick – todos passaram a tratar o jovem como um atleta especial, a querer conhecer a sua história e assitir às suas performances.

Fatores como a elevada maturidade corporal, inteligência emocional e qualidade técnica fizeram com que o jogador personificasse perfeitamente o termo “acima da média” – Endrick, apesar de nem sequer ter completado a maioridade, sempre atuou com protagonismo, conquistou títulos de caráter estadual e nacional, marcou tentos decisivos, acumulou atuações emblemáticas, conquistou o seu espaço na Seleção Brasileira, atingiu o patamar de maior promessa do futebol brasileiro dos últimos anos, tornou-se a maior revelação da história do Palmeiras e um jogador admirado por torcedores de todo o país. E toda essa história de Endrick no futebol, dos seus incríveis números nas categorias de base até os seus impressionantes feitos em sua curta trajetória como jogador profissional, fazem com que o sucesso pareça ser o seu destino natural.

Mas talvez ainda seja importante não abandonar completamente uma linha de análise de tom, por assim dizer, racionalista. É fato que o atleta, por tudo o que faz dentro de campo e por conta de tudo o que passou até chegar ao patamar atual, não apenas deve, como também merece atingir o estrelato no esporte. Entretanto, temos que lembrar que meritocracia não existe. Nada depende apenas de um indivíduo. Não na vida, onde os contextos, a sociedade e a família importam demais. Nem no futebol, onde a sorte, o certame, o técnico e a equipe interferem muito. Endrick, de fato, ultrapassou muitas barreiras para torna-se um prodígio – estamos falando de um jovem preto que a nossa sociedade racista não vitimou, que o tráfico não recrutou, que teve um pai presente na criação e que tornou-se um jogador profissional. Porém, ainda que a glória esteja esperando-o, assumir o seu lugar na história do futebol ainda dependerá de fatores inerentes a um esporte coletivo e a uma sociedade.

Porém , caso a vida de Endrick siga o curso natural, também não será uma certeza tediosa saber que o jogador um dia chegará ao lugar onde todos nós sabemos que é seu por direito. Muito pelo contrário – será um privilégio poder acompanhar um jovem preto construir o seu reinado no futebol. Presenciamos Endrick colocar-se à frente do seu tempo ao transpassar com facilidade todas as etapas convencionais de formação de atletas nas categorias de base, vimos um menino de dezessete anos de idade ser decisivo e até referência técnica em uma equipe absolutamente consolidada e histórica como o Palmeiras de Abel Ferreira e também desfrutamos de seus gols com a camisa da Seleção Brasileira nos lendários estádios de Wembley e Santiago Bernabéu. E ainda tem muito mais por vir, das gloriosas noites européias às inesquecíveis atuações em Copas do Mundo.

Fluminense e a temporada dos sonhos!

Ao olharmos para os principais eventos da temporada de 2023 do Fluminense não ficam dúvidas de que é o tom onírico que impera sob qualquer outra sensação.



Antes do início da temporada de 2023, não era difícil de imaginar que esse ano, diferentemente do que ocorria no início dos anos anteriores, poderia ser no mínimo satisfatório para o Fluminense, isso porque a temporada de 2022 deixou sinais consistentes para termos essa sensação – a facilidade com que o estilo de jogo do técnico Fernando Diniz conseguiu ser compreendido e aplicado pelos seus comandados, ter ficado na terceira colocação no Campeonato Brasileiro e vencido o Campeonato Carioca, ainda sob a tutela do treinador Abel Braga, eram os principais fatores que contribuíam para isso. Mas algo ainda nos impedia de imaginar que o clube das laranjeiras poderia disputar as principais competições com chances reais de conquista – a disparidade financeira que existia, e ainda existe, entre ele e as principais potências futebolísticas do país.

É bem verdade que o Fluminense teve um ano animador em 2022 sob as mesmas condições financeiras que estão vigentes atualmente – o clube estava longe de ter uma das maiores folhas salariais entre as principais equipes do Brasil e ainda mais longe de ter sido um dos que mais investiu em contratações. E a manutenção desse cenário parecia que iria fazer com que Flamengo e Palmeiras dominassem, como de costume no último lustro, os certamentes mais importantes do país. Mas, com a temporada de 2023 do futebol brasileiro tendo chegado ao fim, não há como negar que a equipe tricolor contrariou as expectativas e venceu com todos os méritos o certame estadual – aplicando impiedosos 4 a 1 no Flamengo na finalíssima, após ter perdido o primeiro jogo da decisão por 2 a 0 – e, pala primeira vez na história do clube, a Copa Libertadores, frente ao Boca Juniors, em pleno Maracanã.

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É também importante lembrar que mesmo na temporada mais icônica da história do Fluminense, nem tudo foram flores. A equipe tricolor teve períodos de oscilação ao longo do ano e sofreu algumas derrotas em que o adversário mostrou-se bastante superior. Mas até no revés que pode ser considerado o mais marcante da temporada – os 4 a 0 frente ao Manchester City, na final do Mundial de Clubes – Diniz e seus comandados em nenhum momento deixaram de tentar atuar à sua própria maneira, além de terem conseguido dominar, por alguns minutos, o adversário e expor ao mundo o particular estilo de jogo que os fizeram disputar uma competição de caráter intercontinental – aspectos que assumem um grau de relevância importante quando consideramos a esmagadora diferença financeira e técnica entre o clube brasileiro e o inglês.

Apesar dos poucos pesares ao longo do ano, nada será mais marcante para o torcedor tricolor que acompanhou o Fluminense nesta temporada do que os mágicos momentos vividos pelo clube. Momentos tão inesquecíveis que dispensam até mesmo qualquer contextualização para serem não apenas lembrados, como também sentidos pela torcida. Seja quando Marcelo driblou um punhado de jogadores rubro-negros e abriu o caminho para a goleada histórica, ou quando o placar de 5 a 1 contra o River Plate serviu como prova cabal de que 2023 reservava algo grandioso para a agremiação; ainda mais memorável quando a canção ‘Tá escrito’ prenunciou o milagre do Beira-Rio; e é claro que todo tricolor, vivo ou morto, nunca vai esquecer de quando Keno ajeitou de cabeça para John Kennedy disparar um chute onírico e exorcizar os fantasmas de 2008, pintando o continente de verde, branco e grená.

Vinicius Júnior, racismo e a violência como resposta!

A mais recente onda de ataques racistas a Vinícius Jr evidenciou que o uso da violência é a única resposta eficaz contra o racismo.



Parecia que estávamos apenas assistindo a mais um jogo do Campeonato Espanhol, pois nada era muito especial naquele confronto entre Valência e Real Madrid. Nenhuma coisa fora da normalidade de uma partida qualquer de futebol estava ocorrendo até o momento em que ofensas racistas começaram a ser ouvidas no Estádio de Mestalla – Vinícius Jr era o alvo. O atacante do Real Madrid, enquanto grande parte da torcida valacentista o chamava de macaco, revoltou-se de forma justa e necessária diga-se de passagem, com a situação. Vinícius agrediu e sofreu agressões dos jogadores adversários, ainda assim, acabou sendo o único expulso de campo. Assim, em resumo, configurou-se a mais recente onda de ataques racistas sofridas pelo atleta brasileiro.

A fatídica partida entre Valência e Real Madrid ocorreu no último dia 21 de maio. Passaram, portanto, cerca de três semanas do ocorrido e nesse período de tempo vimos uma comoção gigantesca de diferentes parcelas da sociedade com tudo que Vinícius Jr sofreu. Campanhas contra o racismo e em solidariedade ao jogador foram feitas no Brasil e na Espanha – clubes e suas torcidas, federações de futebol, veículos de imprensa e políticos, incluindo até mesmo Luiz Inácio Lula da Silva, o atual presidente de nosso país, participaram do movimento. Mas fato é que o distanciamento temporal do ocorrido nos permite afirmar que nada disso teve a capacidade de mudar radicalmente o panorama do racismo na Espanha, no Brasil ou em qualquer lugar do mundo.

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É importante dizer que as ofensas racistas sofridas por Vinícius Jr em Valência não foram um ponto fora curva – muitíssimo pelo contrário. O atleta sofreu, dentro e fora dos estádios, pelo menos uma dezena de ataques racistas desde o ano de 2021. E, ainda que pareça um absurdo, foram necessários inúmeros ataques e um evento de proporções tão repugnantes como o que vimos no Estádio de Mestalla para que o sentimento de que essa onda racista precisaria urgentemente acabar contagiasse a esmagadora maioria das pessoas – e ainda assim nada mudou. A sensação é a de que o racismo talvez tenha saído ileso do que podemos chamar de “período de turbulência” em seu funcionamento convencional.

Podemos, então, chegar a conclusão de que tudo o que vem sendo feito para combater o racismo no futebol e na sociedade não está sendo eficaz. E isso ocorre porque – ao contrário do que muitas pessoas ainda pensam –, o racismo não se manifesta apenas na esfera pessoal: xingamentos, gritos, cânticos, etc. O racismo é algo estruturante da nossa sociedade – ele é uma força invisível que molda a forma como todos nós nos relacionamos, guia acções, ideias e a vida em geral. É evidente, então, que as ações que estão sendo tomadas até podem trazer algum avanço na luta antirracista, mas não irão trazer mudanças radicais. Usar a violência para combater o racismo, seja ela institucional, econômica e até mesmo física, é a ação necessária a ser feita – pois o racismo é algo essencialmente violento.

Por último, é importante dizer que este curto texto não tem a intenção de aprofundar-se na temática do racismo, suas esferas, dinâmicas, causas, consequências e etc. O escrito tem a intenção apenas de endossar as importantes campanhas antirracistas do meio do futebol que ganharam um apelo considerável com o ocorrido com Vinícius Jr, mas sem deixar de alertar que elas são insuficientes para gerarem alguma mudança radical na estrutura racista presente no esporte e na sociedade espanhola, brasileira ou em qualquer outra, além de também mostrar a ferramenta que tem a capacidade de nos levar a combater o racismo de uma forma realmente eficaz.

Voltaremos a discutir o tema, camaradas.

A complexidade do futebol e suas armadilhas!

A complexidade do futebol é motivo de fascínio para quem tem um olhar atento ao Jogo. Mas, ao mesmo tempo que fascina, ela também traz armadilhas.



O futebol é um esporte simples em sua essência, porém complexo em seu funcionamento. É simples no sentido de que qualquer pessoa consegue assimilar suas regras sem nenhuma grande dificuldade; conseguimos olhar para uma partida de futebol e enteder o que está acontecendo sem nenhum grande esforço; não é necessário ter nenhum grande conhecimento prévio para desfrutar do futebol de maneira satisfatória – esses são alguns dos aspectos citados, diga-se de passagem, de forma correta quando tentam explicar o fato desse esporte ser o mais popular do planeta. Entretanto o futebol também é muito complexo, no sentido de que diversos fatores exercem influência sobre o que ocorre dentro de campo – e é exatamente nesse ponto que ele nos trás algumas armadilhas.

Antes de mais nada, peço para que atentem-se apenas ao campo das análises sobre o Jogo – aquela parte do futebol que está ligada às interações entre o que acontece no gramado e suas decorrências mais diretas – e ignorem, somente durante a leitura deste escrito, a parte do futebol que relaciona-se com geopolítica, economia, cultura e afins. Isso irá deixar as coisas um pouco menos complexas. Pois bem, a simplicidade que observamos na essência do futebol é combalida, ou até mesmo extinguida, quando olhamos para o seu funcionamento; um olhar minimamente atencioso conseguirá identificar que fatores psicológicos, táticos, sentimentais, técnicos, físicos, entre muitos outros, estão em confluência no meio do futebol profissional.

Chegamos, portanto, a uma conclusão – é possível alisar o Jogo a partir de diferentes aspectos. Por um lado, essa conclusão é importante, pois contraria quem diz que o futebol pode ser explicado a partir de uma única vertente, por outro lado, ela de pouco nos serve, uma vez que cria novas questões a serem respondidas. A principal delas é – ao assumirmos que é possível alisar o Jogo a partir de diferentes aspectos, temos que assumir também que existe algum aspecto mais importante do que outro? A resposta é não. É claro que algum aspecto pode ser mais perceptível do que outro ao longo de uma partida, mas isso não muda o fato de que outros aspectos também estão influenciando no que ocorre em campo. É importante também dizer que existem espécies de parcelas entre quem acompanha o futebol e que cada uma dessas parcelas enxergam o Jogo através de uma ótica preferencial.

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Notem: o torcedor comum, muito por conta de ter uma ligação quase que exclusivamente passional com o esporte, tende a dar mais atenção aos aspectos anímicos e psicológicos do Jogo e a ignorar, parcialmente ou completamente, o aspecto tático. Por outro lado, também existem muitos torcedores que lêem o futebol prioritariamente a partir de um viés tático e aprofundam-se nesse vasto tema – com o aumento de ferramentas de estudo e da disseminação do assunto, esse fenômeno cresce dia após dia. É verdade também que os grupos de pessoas com formas preferencias de interpretar o futebol não estão restritos aos torcedores comuns – eles também são vistos na imprensa esportiva, por exemplo. É comum que jornalistas/comentaristas enxerguem o Jogo, por inúmeros e diferentes motivos, através de uma ótica principal.

E é algo de fato normal que certos nichos de torcedores tenham suas formas preferências de interpretar o futebol, até porque nem todos eles relacionam-se com o esporte da mesma forma. Mas entender isso como normal não pode nos fazer ignorar os potenciais problemas que isso pode causar. Acharmos que a nossa maneira preferencial de enxergar o futebol é mais correta do que as outras certamente irá fazer com que as nossas análises não consigam ser fidedignas com a realidade. Em última instância, isso pode nos levar a fazer comentários que incitam o sentimento de ódio contra jogadores, técnicos e dirigentes – o que pode ter consequências trágicas para eles e para nós mesmos.

Por fim: a grande conclusão a qual podemos chegar a partir do pensamento estabelecido neste curto escrito é que o futebol, por conta dos inúmeros fatores que estão em confluência em seu ambiente profissional, é um esporte complexo e que ignorar tal complexidade irá fazer com que qualquer pessoa não consiga analisar o Jogo, por assim dizer, de forma satisfatória. O caminho para fugirmos das armadilhas que a complexidade do futebol nos trás é, antes de mais nada, assumirmos essa complexidade, também é importante assitir às partidas completas, e nunca substituir isto por vídeos de melhores momentos das pelejas, para conseguirmos indentificar quais fatores estão mais presentes dentro de campo e no ambiente dos clube em geral, e como eles estão interagindo uns com os outros – isso irá melhorar a forma como enxergamos o esporte.

Fernando Diniz e o seu compromisso com o prazer!

É impossível ser indiferente a Fernando Diniz – o atual comandante do Fluminense vem despertando amor ou ódio em quem acompanha o futebol brasileiro desde a última década. As idiossincrasias do técnico podem ajudar a explicar essas antagônicas emoções que ele desperta nas pessoas.



Fernando Diniz é um técnico que divide de forma quase que antagônica a opinião do público geral – existem os que o amam e os que o odeiam. Não é exatamente que amem ou odeiem o ser humano Fernando Diniz; o que de fato divide as opiniões a cerca do comandante é o que ele representa enquanto treinador de futebol. Odiando ou amando, fato é que ninguém é indiferente a Diniz – o que é algo no mínimo intrigante. Isso porque, em primeira análise, não é fácil entender por que um técnico que está há relativamente pouco tempo no futebol de elite nacional e que nunca conquistou nem sequer um título relevante em sua carreira desperta sentimentos tão fortes em quem acompanha o Jogo no Brasil.

Algumas questões podem ajudar a explicar o certo fascínio, para o bem e para o mal, que existe sobre a figura de Fernando Diniz. Mas, antes de mais nada, precisamos entender o que o treinador representa. Diniz – em termos bem gerais e subjetivos – simboliza o resgate do “futebol-arte”, do “futebol bem-jogado”, da “verdadeira essência do futebol brasileiro”, em uma época em que a sensação é a de que o futebol nacional caminha na direção contrária disso tudo. E é justamente essa ideia de que Diniz é um técnico diferente da esmagadora maioria dos outros de nosso país, o represente do Jogo que encanta, que faz com que ele goze de um apreço até sentimental de torcedores Brasil afora.

Para além do grande apreço que tem de muitos torcedores, o treinador também tem uma relação afetuosa com muitos dos atletas que treinou ao longo de sua carreira. O que pode ajudar a justificar tal relação é confiança que Diniz – psicólogo por formação – passa aos seus atletas nos jogos e treinos, além de sua notável capacidade de potencializar e aumentar as valências de diversos jogadores – da periferia à elite do futebol nacional. Acredito, entretanto, que – acima de tudo – tanto para os torcedores quanto para os jogadores o que mais cria apreço a Diniz é o compromisso – que talvez nem tenha sido firmado de forma totalmente deliberada – que ele tem com o prazer. Aos torcedores, Diniz proporciona o prazer de assitir futebol, aos atletas, o prazer de jogar.

Mas por que Diniz – mesmo sendo o técnico que atualmente mais representa ideias bastantes caras a muitos torcedores brasileiros – tem uma grande rejeição de uma parcela considerável deste grupo? A resposta para essa pergunta talvez não seja surpreendente – pelo menos não para quem observa as características gerais dos adeptos brasileiros. O torcedor de nosso país, via de regra, é um ser que até valoriza coisas como o estilo de jogo ofensivo, propositivo e encantador, mas não há nada que valorize mais do que títulos. O fato de muitas pessoas enxergarem no estilo de jogo de Diniz um “alto risco” de execução também é um fator que contribui para a sua rejeição, nada, porém, é mais determinante do que o fato dele nunca ter conquistado um troféu de grande relevância.

Algumas questões podem ser apontados para tentar explicar os motivos da ausência de títulos no currículo de Diniz. Porém a ideia de que o técnico não conquistou troféus relevantes porque ainda não fez nenhum trabalho bom em sua carreira não pode – em hipótese alguma – ser apontada como um fator. Primeiramente, porque o técnico de fato tem bons trabalhos em sua trajetória à beira dos gramados, e, em segundo plano, também porque, como sabemos – ou pelo menos deveríamos saber –, nem todo bom trabalho resulta em título e nem todo título é resultado de um bom trabalho. E antes de relembramos toda a trajetória do comandante é necessário dizer que todos os seus trabalhos podem devem ser analisados com uma profundidade maior do que a presente neste texto.

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Pois bem, Diniz iniciou sua carreira como técnico em 2009. E desse ano até meados da temporada de 2017, ele comandou clubes de pouca expressão nacional: Votoraty, Paulista, Botafogo de Ribeirão Preto, Atlético Sorocaba, Paraná e Audax. Nessa fase de sua carreira, Diniz conquistou um Campeonato Paulista – Série A3 e duas Copas Paulista – títulos importantes para o cenário futebolístico em que estava inserido, longes, entretanto, de serem relevantes no cenário da elite nacional. Ao longo desse período, o treinador acumulou prestígio com trabalhos em que desenvolveu as valências técnicas de diversos atletas – de diferentes idades, posições e características – e fez suas equipes performarem em alto nível, muitas vezes em um nível acima do que a qualidade dos elencos sugeriam.

O início da caminhada de Diniz em clubes de maior expressão nacional começa no Athletico-PR, em 2018. A expectativa era grande para o primeiro trabalho do técnico na elite do futebol brasileiro, mas o trabalho durou apenas seis meses. No início da temporada seguinte, Diniz assume o cargo técnico do Fluminense – a passagem do treinador no clube carioca dura até meados de agosto. Pode ser considerada a série de resultados ruins no Campeonato Brasileiro o principal motivo do encerramento desses dois trabalhos. Ainda no final de 2019, o comandante assinou com o São Paulo – o trabalho durou cerca de dezessete meses e passou longe de ter sido ruim, mas a queda acentuada de rendimento na reta final do campeonato nacional de 2021 marcou mais a passagem do que qualquer outra coisa. Santos e Vasco foram os clubes que Diniz assumiu na temporada de 2021 – as duas passagens somadas duraram cerca de seis meses e tiveram o curto tempo de duração como grande marca.

Esses trabalhos – a despeito de suas inúmeras particularidades – tiveram roteiros no mínimo similares: um início animador, em que bons resultados e o estilo de jogo vistoso empolgavam, mas que com o passar do tempo os problemas táticos apareciam – principalmente no setor defensivo – e causavam maus resultados e períodos de oscilação, aos quais Diniz não resistia por muito tempo e acabava sendo demitido. O melhor trabalho do treinador, e o que mais foge dos principais esteriótipos postos sob ele, é o atual. Diniz iniciou sua segunda passagem pelo Fluminense no final de abril de 2022- rapidamente o técnico implementou o seu estilo de jogo e com uma equipe segura defensivamente e de entrosamento coletivo destacável chegou às semifinais da Copa do Brasil e terminou o Campeonato Brasileiro na terceira colocação.

O grande desafio de Fernando Diniz nesse ano de 2023 é justamente o grande desafio de sua carreira até o momento – conquistar um título de relevância. O início desta temporada mostra – apesar da amostragem pequena de partidas e do baixo nível técnico da grande maioria dos adversários – que o técnico está no caminho para aprimorar, utilizando-se dos reforços trazidos pelo clube e do maior tempo de implementação de suas ideias no elenco, o trabalho iniciado no ano passado, o que aumenta as chances de sua equipe conquistar um título nesta temporada. E o desafio de todos nós é o de tentar fazer com que o fato de Diniz ser um técnico diferente dos demais não faça com que as nossas análises sobre o seu trabalho sejam totalmente desviadas, para o lado positivo ou negativo, dos, por assim dizer, melhores padrões de análises estabelecidos no futebol brasileiro.

Apenas queremos ter certeza!

As verdades absolutas amontoam-se em pouco mais de um mês após o início da temporada de 2023 do futebol brasileiro – a prova de que está presente em todos nós uma duradoura e perigosa patologia.



O Campeonato Carioca começou em 12 de janeiro. O Estadual de São Paulo teve início três dias depois. A bola rolou no certame de Minas Gerais pela primeira vez neste ano no dia 21 de janeiro, assim como no Rio grande do Sul. Enfim, faz pouco tempo que os principais torneios estaduais do Brasil tiveram início. Ainda assim, todos nós, sejamos torcedores ou membros da imprensa esportiva, estamos abastados de certezas sobre os grandes clubes que os disputam – em cerca de um mês, já temos a certeza de quais técnicos farão ou não um bom trabalho, sabemos qual o estilo de jogo é o melhor para cada equipe, julgamos quais contratações deram certo e quais deram errado.

Parece até algo irracional o fato de que em um ambiente tão complexo como é o ambiente do futebol brasileiro nós tenhamos tantas verdades absolutas para dizer após um mês do início da temporada. A amostragem de jogos ainda é pequena, o nível técnico dos adversários dos grandes clubes é, via de regra, baixo, os atletas estão longe de suas melhores formas físicas, os trabalhos então em fase inicial ou retornando o ritmo da temporada anterior – tudo isso impede que qualquer análise de caráter definitivo seja feita neste momento. Mas então por que será que ignoramos tudo isso? A resposta está longe de ser complexa: ignoramos porque apenas queremos ter certeza.

Muitos de nós até temos em mente que é necessário fazer ponderações em qualquer análise quando a temporada está em sua fase inicial. Entretanto, o nosso desejo por ter certeza é maior do que qualquer expressão de racionalidade que possamos demostrar. E é um desejo de fato irracional, um desejo quase que patológico – pois sabemos que não temos o que é necessário para fazer um juízo de valor a cerca de qualquer assunto que provenha dos gramados brasileiros neste momento, seja sobre o trabalho de um técnico, o estilo de jogo de uma equipe, contratações feitas por um clube, etc.

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Talvez deixar de apresentar certeza na prática de seu ofício possa trazer problemas profissionais ou até mesmo ferir o ego de quem trabalha na imprensa esportiva. Também é possível que apresentar certeza em uma conversa com camaradas em um bar ou em uma discussão nas redes sociais satisfaça o ego do torcedor, por assim dizer, comum. Bem, não há como ter certeza, mas estas são apenas algumas hipóteses que podem nos ajudar a enteder porque buscamos de forma feroz passar a sensação de certeza no que dizemos – o que é algo problemático, ainda mais no início de uma temporada.

Problemático porque, levando-se em conta a influência que a imprensa esportiva e as torcidas possuem sobre as decisões tomadas dentro dos clubes, a disseminação de supostas verdades por parte desses dois sujeitos pode ter consequências ruins. Os cartolas das agremiações, assim como qualquer outro ser humano, têm os seus pensamentos e ações condicionadas pelo ambiente em que estão inseridos – por isso que o que é dito na imprensa, nas redes sociais e nos estádios impacta diretamente em muitas das coisas que ocorrem nos clubes. Coisas essas que até podem ter um cateter positivo, mas – historicamente – manifestam-se mais de forma negativa.

A questão levantada neste texto não é o principal fator que impede o Futebol Brasileiro de dar um salto de qualidade, de ir na direção do que de melhor existe em termos táticos, organizativos e estruturais na Europa, de torna-se uma espécie de “Premier League” da América do Sul ou qualquer outra coisa nesse sentido – mas certamente também é um importante fator impeditivo. É quase que consenso que o futebol nacional poderia estar em um patamar superior ao que está, o que não é consenso, porém deveria ser, é que para atingirmos tal patamar também é importante que torcedores e jornalistas tomem cuidado com as certezas que dizem e disseminam.

Pelé é do tamanho da eternidade!

No último dia 29 de dezembro, Pelé – o Rei do Futebol – morreu aos 82 anos de idade. Os feitos do maior atleta de todos os tempos e a comoção global vista após o seu falecimento não deixam dúvidas de seu tamanho na história do Brasil e do do futebol mundial.



Creio que todo brasileiro e amante do futebol já havia imaginando em algum momento de suas vidas como seria o dia em que Pelé morreria. Aliás, não estamos falando de um simples homem, mas, sim, do maior atleta da história e mais – estamos falando de um homem que mudou o patamar do Brasil no mundo, uma espécie de “Pai Fundador” da Nação Brasileira e do que conhecemos como futebol. E o que todos imaginavam de fato aconteceu – após a notícia do falecimento de Pelé, todo o planeta parou para reverenciar Vossa Majestade.

Pelé – incontestavelmente – é o maior jogador da história do futebol. Não somente pelas três Copas do Mundo que conquistou ou pelos mais de mil e duzentos gols que fez, e também não pelos exuberantes e inesquecíves desfiles nos gramados brasileiros e de todo o mundo. Pelé é tão grandioso, principalmente, pelos sentimentos que causou, causa e continuará causando nas pessoas. A legitimidade da realeza de Pelé parece não estar no que ele fez, mas, sim, no que ele nos fez sentir – o esporte que amamos é forjado à sua imagem e semelhança.

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E é claro que é difícil olhar para o incalculável legado que Pelé nos deixou e conceber a ideia de que ele é ser humano como qualquer é um de nós – mas ele é. As polemicas e contradições que marcaram a vida do maior atleta da história nos trazem a certeza de que Edson Arantes do Nascimento era falível. Mas, dentro de campo, Pelé era tão perfeito que até quando errático era genial – alguns de seus lances que não tornaram-se gols estão mais eternizados na mente dos amantes do futebol do que qualquer tento marcado ao longo de toda história do Jogo.

Camaradas, não há como tergiversar – perder Pelé é perder coisa demais. A grandiosidade do maior jogador da história do futebol não cabe em 82 anos de existência mundana e em um caixão de madeira, e muito menos cabe neste pequeno texto. A grandiosidade de Pelé é do tamanho exato da eternidade – os seus incríveis feitos e, principalmente, as memórias, os sentimos, o intangível legado que ele nos deixou irão perpetuar-se até o fim dos tempos. Edson Arantes do Nascimento, de carne e osso, está morto. Pelé, de memórias e sentimos, é eterno.

Obrigado, Pelé! Vossa Majestade sempre será sinônimo de Futebol!