A aprovação da SAF é carta de alforria do Vasco da Gama?

O Vasco da Gama é oficialmente uma SAF. A mudança de modelo de gestão adotado pelo clube está sendo tratado pela grande maioria dos dirigentes da agremiação, torcedores cruzmaltinos e da imprensa como uma espécie de carta de alforria – muito por conta de indicar a libertação do clube das mãos daqueles que o levaram a viver o seu pior período de sua história. Mas é possível afirmar?



Quando houve a divulgação, no primeiro domingo deste mês, do resultado da votação realizada em assembleia geral pelos sócios do Vasco da Gama que acabou por aprovar a venda de 70% da SAF – Sociedade Anônima do Futebol – do clube para a 777 Partners – uma empresa estadunidense de investimento – rapidamente o sentimento de que esse acontecimento mudaria a história da agremiação para sempre espalhou-se entre dirigentes e torcedores do clube, e também por grande parte da imprensa. Era oficial, a partir daquele momento, a área de futebol do Cruz-Maltino estava nas mãos de um bilionário grupo norte-americano – o 777 Football Group, nome do projeto futebolístico da empresa.

Analisar esse tema – que certamente é um dos mais relevantes do futebol brasileiro neste ano – requer muita seriedade. Primeiramente: vejamos o que ficou acordado entre as partes. A empresa dos Estados Unidos comprometeu-se contratualmente a investir nas próximas três temporadas, no mínimo, R$ 700 milhões por 70% da SAF – os outros 30% permanecerão sob a tutela do Vasco – e a assumir a dívida de R$ 700 milhões da instituição. Da quantia destinada ao setor de futebol do clube, R$ 70 milhões foram antecipados como empréstimo-ponte, aprovado pelo Conselho Deliberativo em março deste ano.

É importante dizer que a empresa terá que injetar na SAF o valor de R$ 120 milhões ainda em 2022. Essas cifras serão usadas em contratações, no pagamento de folhas salariais e na modernização e ampliação de partes da estrutura do clube. O montante restante será investido até o ano de 2026. E a partir da temporada de 2027, o investimento estará condicionado ao desempenho esportivo. Caso a agremiação conquiste troféus importantes e atinja determinadas metas, a 777 Partners terá a obrigação de realizar um investimento mínimo fixo, corrigido pelo IPCA – Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo, elemento utilizado para observar tendências de inflação no país. E caso a equipe não alcance um desempenho esportivo satisfatório, a empresa terá de manter a agremiação, minimamente, entre os cinco maiores orçamentos do futebol nacional.

É claro que – para os torcedores de um clube que está na Série B há duas temporadas, sofreu quatro rebaixamentos desde 2008 até os dias atuais e disputou a segunda divisão do futebol nacional em cinco temporadas neste período – a notícia de que uma empresa dos Estados Unidos, que também é dona do Genoa, Standart Liège e Red Star, irá injetar um valor que beira os R$ 1 bilhão gera um gigantesco sentimento de esperança por dias melhores. Entretanto – em hipótese alguma – isso pode descartar a necessidade de uma análise do que ocorreu até este momento no processo de mudança de regime e das próximas etapas de tal processo.

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Bem, até quem propõem-se a realizar uma análise sem a influência da empolgação e do positivismo dos torcedores cruzmaltinos tem que admitir que tudo o que ficou acertado contratualmente – a transferência da dívida, os investimentos em contratações e na estrutura – irão ajudar o Vasco a sair do pior período de sua centenária história. Porém também é importante lembrar – particularmente, com o sentimento de lamentação – que o Vasco precisou passar o controle de seu futebol masculino, feminino e das categorias de base para as mãos de um grupo estadunidense por conta de décadas de irresponsabilidade e incompetência de seus gestores.

E é interessante dizer que essa é uma das particularidades do que podemos chamar de “fenômeno clube-empresa” no Brasil. Em nosso país, o que não pode ser considerado um padrão em outros lugares do mundo, os grandes clubes que estão tornando-se SAF – em maior ou menor nível –, invariavelmente, apresentam nos aspecto financeiro, esportivo e político um cenário caótico – Cruzeiro e Botafogo, agremiações que tornaram-se empresas recentemente, e, a partir de então, também o Vasco exemplificam muito bem isso.

Em síntese: com o pouco que existe de objeto de análise até este momento – o que nos limita a fazer apenas uma análise primária, logo, não definitiva –, é possível chegar a conclusão de que a 777 Partners irá assegurar a libertação do Vasco das formas de gerência que tanto o fizeram mal nos últimos anos e também pavimentará um futuro promissor ao clube. O que está acertado em contrato mostra que a intenção do projeto do grupo estadunidense é de reerguer a agremiação e capacitá-la a disputar títulos relevantes nas próximas temporadas em uma condição semelhante ou igual as que atualmente clubes como Palmeiras, Flamengo e Atlético-MG dispõem dentro do Brasil e no continente.

Por fim – ainda que tudo indique um futuro animador- insisto: será necessário analisar e julgar as ações que terão impacto na construção de tal futuro. Isto é, principalmente, o planejamento e a execução de processos, como o de montagem do novo corpo diretor do clube, o de escolha de técnico e o de reformulação de elenco. Isso para que eles sempre visem o objetivo mais primordial e imediato da instituição – voltar à elite do futebol nacional – e os de caráter, por assim dizer, mais atemporais – estar financeiramente saudável, capacitada para brigar por grandes troféus e, fundamentalmente, com perspectivas de futuro positivas.