Copa do Mundo Catar 2022 – Além das quatro linhas!

A Copa do Mundo de 2022 chegou ao fim e nos deixou com a missão de não apenas exaltamos tudo de espetacular que aconteceu nos gramados do Catar, como também com a de discutirmos importantíssimos assuntos fora das quatro linhas que receberam holofotes ao longo do certame mundial.



A Copa do Mundo Catar 2022 chegou ao fim no último domingo. A maior competição de futebol do Planeta Terra não apenas consagrou a Seleção Argentina tricampeã mundial, como também nos permitiu presenciar a maior final de Copa de todos os tempos – talvez um dos maiores jogos da história do futebol –, em que Lionel Messi brilhou, gritou sem abrir a boca para o mundo inteiro ouvir que agora não falta mais nada a ser conquistado em sua carreira, credenciou-se a entrar no panteão que apenas Pelé – o eterno maior jogador de todos os tempos – está, transformou-se em um verdadeiro Deus para os argentinos e fez parecer que o futebol não é um esporte em que o imponderável impera de forma quase que brutal, mas, sim, um esporte em que o que chamamos de justiça faz-se sempre presente nos momentos necessários. E nós, torcedores da Seleção Brasileira, choramos com a eliminação nas quartas-de-final do certame.

A derrota para a Croacia na disputa por pênaltis doeu. Doeu porque tínhamos – entre outras coisas – uma expectativa muito grande de conquistar o hexacampeonato da Copa do Mundo neste ano; doeu porque a Seleção Brasileira tinha um elenco composto por jogadores de qualidade técnica superior ao do escrete europeu; doeu porque criou em nossas mentes a angustiante sensação de que existe algo que impede a Seleção Brasileira de eliminar uma seleção do velho continente em um mata-mata de Copa do Mundo; doeu porque o mágico gol de Neymar marcado no minuto 106 nos fez sorrir, chorar de felicidade e acreditar que nada tiraria a nossa vaga nas semifinais do certame mundial; também doeu porque o gol anotado por Petković no minuto 117 – sofrido justamente de uma forma que as equipes de nosso então técnico Tite não costumam sofrer – despertou em todos os brasileiros a íntima sensação de algo muito triste estava por vir – e veio.

Mas, além de trazer dor, a eliminação para a Seleção Croata lembrou a alguns brasileiros e ensinou a outros que o futebol é feito de detalhes. O tento que levou a partida para disputa por penaltis poderia ter sido evitado com pequenas mudanças no posicionamento em campo de alguns jogadores brasileiros no fatídico lance. Caso alguns ajustes fossem feitos na equipe – questão de detalhes – poderíamos ter conquistado a vitória ainda nos primeiros novena minutos de jogo. Quem analisar de forma minimamente minuciosa a eliminação do escrete brasileiro nos Mundiais de 2006, 2010 e 2018 chegará à conclusão que esses reveses podem ser creditados aos detalhes. O Brasil acostumou-se a ser refém do detalhes, a Copa do Mundo do Catar é apenas mais uma eliminação por detalhes. Mas não podemos nos dizer surpresos com esta constatação – todos nós deveríamos saber que o futebol é feito de detalhes. Aliás, a vida é feita de detalhes.

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Também é apenas um detalhe a própria participação da Seleção Brasileira na Copa Mundo, não porque não correspondemos às expectativas que todos tinham sobre nós, mas porque é muito pouco resumir uma Copa do Mundo em análises das equipes que estiveram na disputa – até mesmo tudo o que envolve a participar do escrete campeão é pequeno em relação à grandeza do certame. A Copa do Mundo do Catar – além de coroar Messi como o segundo melhor jogador da história do futebol, além de nos proporcionar uma das maiores partidas de toda a história do Jogo, além de nos permitir acompanhar a histórica campanha da Seleção de Marrocos, etc –, fez o mundo olhar para algumas questões que estão fora de um campo de futebol – as questões que de fato importam. A Copa nos faz lembrar da célebre frase do lendário ex-treinador italiano Arrigo Sacchi – “O futebol é a coisa mais importante dentre as coisas menos importantes”

É algo no mínimo animador que a Copa tenha feito alguns importante debates virem à tona – mas temos que apontar o reais problemas. Ninguém irá negar que o fato da Copa do Mundo de 2022 ter sido sediada no Catar – uma monarquia reacionária, ditatorial e que viola de forma sistemática os direitos humanos – é algo digno de todas as críticas possíveis. Mas também não podemos negar o fato de que todo o mal chamado “Ocidente” tem, no geral, boas relações com o Catar e com outras monarquias reacionárias da região. E não apenas precisamos citar isto, como também devemos tomar cuidado para que as críticas ao Catar não sirvam para nutrir o preconceito sistêmico produzido pelo “Ocidente” contra os diversos povos árabes e suas diversificadas culturas – é também importante dizer que a produção e reprodução desse preconceito por parte dos países superpotências do tal “Ocidente” tem motivos político-econômicos.

Uma outra coisa também gerou polêmica durante o certame mundial – os jogadores da Seleção Brasileira que foram filmados provando um bife folhado a ouro, avaliado em R$ 9 mil, em uma churrascaria do Catar. Muitas pessoas disseram que ao invés dos atletas degustarem um luxuoso prato – enquanto no Brasil milhões de pessoas estão em situação de insegurança alimentar – eles deveriam estar agindo para ajudar a mudar a situação de seus conterrâneos. Mas cobrar de algum indivíduo que ele tenha práticas de natureza filantrópica, por conta dele ter condições financeiras mais privilegiadas do que a esmagadora maioria pessoas de todo o mundo, não é uma solução efetiva – e muito menos definitiva – para o problema da fome no Brasil e em qualquer lugar do planeta. O que de fato precisamos é criticar a aceitação quase que geral do fato dos alimentos – algo sine qua non para existência de qualquer indivíduo – ser uma mercadoria e não algo que todos possuem o direito a ter.

Existem outras questões que também receberam uma maior atenção das pessoas com a Copa do Mundo de 2022 – como as condições de existência das mulheres no Irã, a causa palestina, o preconceito sofrido pela comunidade LGBTQIAP+ no Catar e no mundo, etc. Todas essas questões precisam ser discutidas com radicalidade, no sentido de discutirmos as raízes dos problemas. A Copa do Mundo acabou e nos deixou órfãs de sua mística grandiosidade e ansiosos para a sua próxima edição. Mas não podemos apenas aguardar – precisamos lutar para que até a próxima Copa do Mundo todo brasileiro acorde com a certeza de que terá o que comer, para que os indivíduos da comunidade LGBTQIAP+ não sejam discriminados por conta de suas orientações sexuais, para que o sistêmico preconceito contra os povos árabes tenha acabado, para que a emancipação feminina tenha sido alcançada, enfim, para que possamos dar um salto civilizacional.

Ascensão das SAFs no futebol brasileiro – Diagnósticos certos e antídotos errados!

A atual temporada do Futebol Brasileiro ficará marcada na história, principalmente, por conta da ascensão das SAFs – a intensificação desse fenômeno indica que fizemos um diagnóstico correto sobre a situação estrutural, administrativa, econômica e esportiva dos clubes de nosso país nas últimas décadas, mas também indica que estamos aplicando um falso antídoto.



O ano de 2022 poderia ficar marcado na história do Futebol Brasileiro por alguns motivos, como a reunião de talentos sem precedentes formada pelo Flamengo e a incrível consolidação do processo do Palmeiras de Abel Ferreira, mas nada será mais marcante do que o aumento do número de clubes – principalmente os historicamente considerados gigantes – que abandonaram o modelo associativo e tornaram-se SAF- Sociedade Anônima do Futebol. A intensificação desse fenômeno em nosso país e sua aclamação por parte dos dirigentes das agremiações e da grande maioria dos membros da imprensa e torcedores mostra que fizemos um diagnóstico correto sobre a situação estrutural, administrativa, econômica e esportiva das instituições futebolísticas brasileiras nas últimas décadas, porém, também nos mostra que aplicamos um falso antídoto.

Ao olharmos para os primórdios do Futebol no Brasil, vemos que a maioria dos clubes de nosso país estruturaram-se como associação civil – uma organização privada, sem fins lucrativos e constituída pela união de sócios, sujeitos que têm a tarefa de eleger um presidente, além de representantes para Conselhos Deliberativo e Fiscal. Já a SAF- a nova forma de gerência de agremiações que está em franca ascensão em terras tupiniquins – é um tipo específico de empresa, gerado pelo Congresso Nacional no dia 6 de agosto de 2021, por intermédio da Lei 14.193/2021. Trata-se, resumidamente, de uma legislação que permite e estimula que os clubes de futebol abandonem o modelo de associação civil e adotem o modelo empresarial – ou seja, a lei autoriza e incentiva que as instituições futebolísticas do Brasil tornem-se empresas.

Existem inúmeras outras questões relacionadas às SAFs que podem ser abordadas de forma mais aprofundada, por exemplo, as de ordem jurídica e tributária. Também existe uma não desprezível produção literária acerca do tema e suas nuances – destaco os livros “Clube Empresa: abordagens críticas globais às sociedades anônimas no futebol”, do jornalista Irlan Simões, e “A Sociedade Anônima do Futebol”, do professor de direito Fernando Augusto De Vita Borges de Sales. Mas, ainda que com uma multiplicidade de aspectos únicos, o centro do debate sobre as SAFs neste texto será em relação ao fato dos clubes, ao adotarem o modelo empresarial, deixarem de ser associações sem fins lucrativos e virarem empresas. Porém, antes de problematizar esta questão, é importante historicizar o tema para entendermos um pouco do processo em curso em nosso país, sua natureza, principais sujeitos e decorrências.

Bem, é fato que o futebol nasceu e estruturou-se em sociedades capitalistas, o que significa dizer que o futebol sempre esteve inserido em um contexto social em que a busca pelo lucro esteve acima de tudo. E ainda que a razão de ser dos clubes de futebol não fosse obter lucratividade, eles sempre foram associações que de certa forma reproduziram as dinâmicas e relações do Capitalismo. No Brasil, a mudança do modelo associativo para o empresarial vem sendo defendida, principalmente, por meio de um discurso que demoniza a história das associações, dizendo que sua a natureza permitiu más gestões, que foram guiadas apenas por interesses de grupos políticos, o que teria culminando no pior momento da história de grandes agremiações do país. Tal linha discursiva também diz que o modelo empresarial irá resolver esses problema e evitar que eles ocorram novamente ao trazer para operar na gestão dos clubes pessoas “capacitadas”, “honestas”, “profissionais”, ”responsáveis”, etc.

Mas, na prática, o “fenômeno clube-empresa” nada mais é do que um fenômeno de absorção do esporte pelo Capitalismo. Note: a partir do período em que Michel Temer assumiu a Presidência da República do Brasil, em meados de 2016, houve uma notável intensificação do Neoliberalismo – doutrina econômica e política que surgiu no século XX e que pode ser entendida como a fase atual do Capitalismo, onde o sistema cria novas formas de acumulação de capital. Está claro que não é uma coincidência a lei que permite e estimula a criação das SAFs ter surgido em meio ao governo do presidente Jair Bolsonaro – o sucessor de Temer no cargo de feche do Executivo Federal e a figura mais simbólica do período mais neoliberal da história do país. Em síntese – as SAFs são produto da neoliberalização do futebol e foram viabilizadas e aclamadas pelo poder público e pelos sujeitos que querem expandir o seu próprio capital pondo-o em um ramo até então – relativamente – pouco explorado em nosso país.

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Entretanto as SAFs também são um produto de um movimento de massa de torcidas que querem ver seus clubes – entre outras coisas – com um grande poderio econômico. Até porque em um esporte onde a conquista daquilo que é considerado sucesso está atrelada às condições financeiras é compreensível que uma pessoa ou um grupo multimilionário que invista em clube seja não apenas visto com bons olhos pelos seus torcedores, mas também suplicado por grande parte deles. Esse sentimento é intensificado na mente dos torcedores quando a sua agremiação está em um momento ruim do ponto de vista esportivo e econômico – como eram os casos dos gigantes que tornaram-se empresas recentemente, Botafogo, Cruzeiro, e Vasco. Porém a adoção do modelo de gerência empresarial não garante êxito esportivo – ainda que alguns dos próprios defensores das SAFs digam isso, essa é a sensação que é transmitida às torcidas quando o assunto é tratado na imprensa, seja por jornalistas, empresários, juristas e afins.

Também é muito importante que nos debates críticos sobre às SAFs todos tenham em mente que o modelo associativo não é perfeito – longe disso. Existem diversos problemas, como a falta de responsabilidade e transparência econômica e administrativa, a disputa de grupos políticos por poder – o que geralmente tensiona de forma negativa o ambiente – e a falta de uma participação efetiva da grande massa de torcedores na gestão das agremiações. E, sem dúvidas, é algo positivo o fato de que nas últimas décadas tenhamos conseguido identificar todos esses problemas. Porém é algo negativo o fato de que a criação das SAFs tenha sido a solução encontrada, isso porque as medidas empregadas para substituir um modelo de gerência que de fato tinha problemas não deveria ser a implementação de um outro modelo que mercantiliza a paixão dos torcedores, os exclui ainda mais da gestão dos clubes e os estratifica como meros consumidores de um produto que deveria pertencer a eles – pois a real razão de ser dos clubes é a sua torcida.

É fácil notar que, até o presente momento, as SAFs gozam de grande apreço e são objeto de desejo de muitos torcedores do país, justamente por estarem à frente de processos de recuperação financeira de importantes agremiações do futebol nacional e de também carregarem consigo a promessa de investimentos de proporções consideráveis em contratações de atletas e até em infraestrutura dos clubes. Mas o cenário de satisfação geral pode mudar quando o primeiro clube-empresa de grande relevância for rebaixado, ou quando o dono de uma SAF tomar uma decisão que desagrade grande parte de uma torcida. E quando isso ocorrer, os torcedores não terão – assim como muito pouco tiveram ao longo da história – as ferramentas necessárias para realizarem uma interferência direta nas decisões que irão ditar o futuro de seu clube, visto que o modelo de gestão empresarial é excludente e centralizador por natureza.

Por fim, peço para que encarem este texto como uma espécie de ensaio, cujo o principal intuito é – de maneira relativamente superficial – apresentar, introduzir e problematizar uma questão para que, assim, possamos refletir de forma crítica sobre a mesma. Ressalto que o tema “ascensão das SAFs no Futebol Brasileiro” pode – e precisa – ser tratado com uma profundidade maior do que a presente neste escrito. Como citado acima, existe uma variedade de obras literárias que abordam o assunto com uma especificidade maior do que a presente nesta publicação. E não esqueçam – ainda que a sensação que atualmente impera seja a de que o processo de neoliberalização do esporte mais popular de nosso país e de nossa própria sociedade ocorre de forma inabalável, precisamos sempre manter em nosso imaginário coletivo que um outro futebol e um outro Brasil são possíveis – mas a viabilização de suas construções passam necessariamente pela organização popular.

Voltaremos a discutir o assunto, camaradas!