Fluminense e a temporada dos sonhos!

Ao olharmos para os principais eventos da temporada de 2023 do Fluminense não ficam dúvidas de que é o tom onírico que impera sob qualquer outra sensação.



Antes do início da temporada de 2023, não era difícil de imaginar que esse ano, diferentemente do que ocorria no início dos anos anteriores, poderia ser no mínimo satisfatório para o Fluminense, isso porque a temporada de 2022 deixou sinais consistentes para termos essa sensação – a facilidade com que o estilo de jogo do técnico Fernando Diniz conseguiu ser compreendido e aplicado pelos seus comandados, ter ficado na terceira colocação no Campeonato Brasileiro e vencido o Campeonato Carioca, ainda sob a tutela do treinador Abel Braga, eram os principais fatores que contribuíam para isso. Mas algo ainda nos impedia de imaginar que o clube das laranjeiras poderia disputar as principais competições com chances reais de conquista – a disparidade financeira que existia, e ainda existe, entre ele e as principais potências futebolísticas do país.

É bem verdade que o Fluminense teve um ano animador em 2022 sob as mesmas condições financeiras que estão vigentes atualmente – o clube estava longe de ter uma das maiores folhas salariais entre as principais equipes do Brasil e ainda mais longe de ter sido um dos que mais investiu em contratações. E a manutenção desse cenário parecia que iria fazer com que Flamengo e Palmeiras dominassem, como de costume no último lustro, os certamentes mais importantes do país. Mas, com a temporada de 2023 do futebol brasileiro tendo chegado ao fim, não há como negar que a equipe tricolor contrariou as expectativas e venceu com todos os méritos o certame estadual – aplicando impiedosos 4 a 1 no Flamengo na finalíssima, após ter perdido o primeiro jogo da decisão por 2 a 0 – e, pala primeira vez na história do clube, a Copa Libertadores, frente ao Boca Juniors, em pleno Maracanã.

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É também importante lembrar que mesmo na temporada mais icônica da história do Fluminense, nem tudo foram flores. A equipe tricolor teve períodos de oscilação ao longo do ano e sofreu algumas derrotas em que o adversário mostrou-se bastante superior. Mas até no revés que pode ser considerado o mais marcante da temporada – os 4 a 0 frente ao Manchester City, na final do Mundial de Clubes – Diniz e seus comandados em nenhum momento deixaram de tentar atuar à sua própria maneira, além de terem conseguido dominar, por alguns minutos, o adversário e expor ao mundo o particular estilo de jogo que os fizeram disputar uma competição de caráter intercontinental – aspectos que assumem um grau de relevância importante quando consideramos a esmagadora diferença financeira e técnica entre o clube brasileiro e o inglês.

Apesar dos poucos pesares ao longo do ano, nada será mais marcante para o torcedor tricolor que acompanhou o Fluminense nesta temporada do que os mágicos momentos vividos pelo clube. Momentos tão inesquecíveis que dispensam até mesmo qualquer contextualização para serem não apenas lembrados, como também sentidos pela torcida. Seja quando Marcelo driblou um punhado de jogadores rubro-negros e abriu o caminho para a goleada histórica, ou quando o placar de 5 a 1 contra o River Plate serviu como prova cabal de que 2023 reservava algo grandioso para a agremiação; ainda mais memorável quando a canção ‘Tá escrito’ prenunciou o milagre do Beira-Rio; e é claro que todo tricolor, vivo ou morto, nunca vai esquecer de quando Keno ajeitou de cabeça para John Kennedy disparar um chute onírico e exorcizar os fantasmas de 2008, pintando o continente de verde, branco e grená.

Gabigol – Um príncipe predestinado à glória!

A importância de Gabigol no atual período de grandes conquistas do Flamengo e sua identificação com a torcida rubro-negra não deixam dúvidas de qual lugar o jogador ocupa na galeria de ídolos do clube.



Quando Gabigol chegou ao Flamengo, em janeiro de 2019, os torcedores rubro-negros, a imprensa e todos aqueles que acompanhavam o futebol brasileiro na época sabiam que estava chegando ao Clube da Gávea – por conta tudo o que o atleta havia demostrado com a camisa do Santos nas temporadas anteriores – um dos melhores atacantes de nosso país naquele momento, porém, dificilmente alguém poderia imaginar que quatro anos mais tarde o jogador seria o grande símbolo de uma gloriosa era e um dos maiores ídolos da história da centenária agremiação carioca

Mas ocorreu justamente o que nem os mais otimistas torcedores do clube ou qualquer outra pessoa podia prever. Gabriel tornou-se a referência técnica de um elenco que reuniu diversos atletas de altíssima qualidade técnica nas últimas quatro temporadas, encarnou o espírito da torcida rubro-negra e transformou-se em uma espécie de representante espiritual da Nação dentro de campo, decidiu tantos títulos que recebeu da torcida a alcunha de O Predestinado, representa tanto um período emblemático da história do Flamengo que é chamado pelos adeptos rubro-negros de “Príncipe da Gávea”.

E é claro que Gabigol não virou ídolo da maior torcida do país de um dia para o outro. A contrução da idolatria da Nação pelo jogador é fruto de sua importância em alguns dos momentos mais mágicos da história do clube – a final da Copa Libertadores de 2019, quando fez dois gols nos minutos finais do jogo para virar de forma heróica a partida frente ao River Plate e na decisão da competição sul-americana deste ano, quando anotou o único tento da peleja contra o Athletico-PR e garantiu novamente o título para o Flamengo – e também de seu comportamento alinhado, por assim dizer, com os valores dos torcedores – algo demonstrado em sua total entrega física e emocional dentro de campo, em seus gestos que efervescem os rubro-negros e nas suas inúmeras provocações contra equipes rivais.

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Sabemos que as estatísticas de um atleta nem sempre são um medidor relevante de idolatria, entretanto, neste caso elas são. Os números de Gabriel dimensionam de forma fidedigna a sua relevância para os torcedores nesta era de ouro do Flamengo. Até este momento, o jogador tem duzentos e nove jogos com a camisa rubro-negra, cento e trinta e três gols – doze deles marcados nas treze finais que disputou -, além de onze títulos conquistados – todos os possíveis de serem obtidos no Brasil e no continente: Campeonato Carioca, Supercopa do Brasil, Recopa Sul-Americana, Copa do Brasil, Campeonato Brasileiro e Copa Libertadores .

É fato que sintetizar às conquistas de um clube em um único jogador é algo de certa forma problemático para quem propõem-se a analisar o Jogo de forma, por assim dizer, concreta, tendo em vista que o futebol é um esporte, por natureza, coletivo. Mas a importância de Gabigol na segunda era mais importante da história do Flamengo e – sobretudo – a identificação do atleta com a torcida rubro-negra são tão grandes que fazem com que ele seja a figura que mais canaliza as recentes glórias do clube. Reitero: Gabriel é para a Nação, ao mesmo tempo, um príncipe e o seu mais fiel representante dentro de campo.

Não é possível tergiversar frente aos fatos – analisar tudo o que Gabigol fez com a camisa rubro-negra desde que chegou ao clube faz com que pensemos que não apanas não é um absurdo dizer que o atleta é o segundo maior ídolo da história do Flamengo – atrás apenas, é óbvio, de Zico – como, na verdade, é algo até coerente. Arthur Antunes Coimbrama é uma divindade para a torcida da agremiação carioca e ninguém – torcedor da instituição ou não – ousa contestar a ideia de que ele é, e provavelmente continuará sendo por toda a eternidade, o símbolo máximo do clube.

Isto porque Zico é- entre outras coisas – a grande figura do primeiro período vitorioso da história do Flamengo. O lendário camisa 10 liderou uma equipe que entre o final da década de 1970 e incio da década seguinte fez o clube deixar de ser apenas popular e passar a ser também vencedor – a Era Zico resultou na conquista de diversos Campeonatos Cariocas e Brasileiros, além de uma Copa Libertadores e um Mundial de Clubes. E Gabriel é o grande símbolo de um período em que o patamar de grandeza em que a geração de Zico pôs o clube aumentou consideravelmente – de fato, existe uma Era Gabigol. Uma Era que ainda não chegou ao fim – tudo indica que o jogador seguirá por mais anos no Flamengo e continuará escrevendo sua gloriosa trajetória na história da agremiação.