Fluminense, nossas dores e nossas alegrias!

Os sentimentos expostos pela torcedores e jogadores tricolores após o Fluminense conquistar a Recopa Sul-Americana sobre a LDU atestam que cada título tem uma importância particular e, geralmente, distinta da relevância que nos acostumamos a dar a eles.



Quando o árbitro argentino Facundo Tello apitou pela última vez no gramado do Maracanã e pôs fim a partida entre Fluminense e LDU, talvez nem todos os espectadores tivessem a noção de que havia chegado ao fim naquele momento algo totalmente diferente de outro jogo qualquer – o dia 29 de fevereiro de 2024 entrou na história centenária do Tricolor das Laranjeiras de forma concomitante com o derradeiro silvo de apito. É claro que o confronto entre a equipe brasileira e a equatoriana carregava consigo algo especial, aliás, o embate era válido pela final da Recopa Sul-Americana, estavam frente a frente o atual campeão da Copa Libertadores e o da Copa Sul-Americana disputando um troféu de nível continental. Mas ao realizarmos uma contextualização histórica conseguimos ter a noção de que existiam coisas ainda maiores em jogo, principalmente para os tricolores.

Fluminense e LDU pode ser descrito como um duelo localizado em um universo particular, absolutamente autossuficiente, ao mesmo tempo causa e consequência. Isso porque ambas as equipes decidiram a final da Copa Libertadores de 2008 e da Copa Sul-Americana do ano seguinte – as duas taças foram levantadas pela agremiação do Equador no Maracanã. Essa breve recapitulação é capaz de dimensionar o que a Recopa Sul-Americana representava para o clube carioca. A oportunidade de conquistar um título continental de fato era algo importante, mas quase que secundário perto da chance que a intuição tinha de exorcizar um fantasma presente na vida de todos os seus torcedores e vingar-se de um clube que a privou de tantas glórias, também era, acima de tudo, a oportunidade de honrar todos os tricolores, vivos e mortos, que viveram os traumas causados pela LDU.

E essa missão quase que transcendental que os deuses do futebol imcubiram à equipe tricolor de realizar surgiu de forma emblemática, após a conquista da Copa Libertadores em pleno Maracanã. Quando John Kennedy acertou o chute onírico, no minuto 99 da prorrogação, e fez o Fluminense alçar o topo da América pela primeira vez na história, a torcida tricolor atingiu um estado de êxtase poucas vezes antes visto. Mas apesar da genuína e satisfatória alegria ter tirado o espaço para que qualquer outro sentimento pudesse florescer, todo torcedor carregava consigo a apreensão de ter certeza íntima de que junto com a tão almejada conquista surgia não apenas a possibilidade, como também a necessidade de triunfar sobre a LDU na finalíssima da Recopa Sul-Americana e por fim no que poderia ser considerado a grande sina da história da agremiação carioca.

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E quis o destino que a terceira final continental entre Fluminense e LDU trouxesse todos os elementos marcantes dos embates anteriores – primeira partida em Quito e a segunda no Rio de Janeiro, a altitude no Equador, o espetáculo da torcida tricolor no Maracanã, as polêmicas de arbitragem, etc. Em Quito, os donos da casa triunfaram por 1 a 0 em uma peleja marcada principalmente pela combatividade das equipes. No segundo jogo da finalíssima, assim como nas decisões passadas, o Maracanã presenciou uma partida dramática, em que apesar da equipe carioca impor-se tecnicamente e taticamente, teve grandes dificuldades para transpassar o sistema defensivo do adversário – até o momento em que Arias despontou como o herói de uma noite especial. O colombiano  igualou o placar agregado da decisão a 15 minutos do fim da peleja e no último minuto do tempo regulamentar converteu com maestria o pênalti que assegurou o histórico título.

Porém ainda houve algo mais impactante do que a inédita conquista – a reação dos atletas tricolores após o título. Diversos jogadores, a grande maioria deles multicampeões nacionalmente e até internacionalmente, deram declarações em que deixaram claro que vencer a decisão frente a LDU não era uma opção, mas, sim, um dever, e que o título teria como maior serventia honrar a memória dos tricolores que não estão mais em vida. Os atletas parecem ter entendido que não é apenas a relevância de um título que faz ele importante, é principalmente o simbolismo subjetivo que ele tem para o clube e seus torcedores. E ninguém vai negar que a agremiação carioca possui conquistas de maior expressão, porém todo o contexto histórico e a carga emocional envolvida no confronto fazem com que a Recopa Sul-Americana e sua partida derradeira seja, respectivamente, um dos maiores títulos e principais jogos da história do Fluminense.

Na direção contrária da euforia da torcida tricolor, surgiu uma espécie de onda reducionista. Em veículos de imprensa e nas redes sociais, pôde-se notar discursos que tinham como linha geral diminuir o feito do clube carioca, alagando, entre outras coisas, que a Recopa Sul-Americana não é um título de grande expressão e, consequentemente, não deveria ser festejado com grande euforismo. E ao analisarmos a questão a partir de um prisma pragmático, esse discurso torna-se plausível. Até porque é de fato importante que o jornalista esportivo racionalize a relação com o esporte e não deixe-se levar pelo frisson das arquibancadas. O que está errado, ou pelo menos é uma ingenuidade, é achar que os torcedores do Fluminense ou de qualquer outro clube devam comemorar suas conquistas de forma proporcional com o peso que elas teoricamente possuem, ao invés de terem como base as emoções pessoais e únicas que elas proporcionam.

Em síntese: nos acostumamos a preestabelecer um valor para cada campeonato. Dia após dia dizemos que os troféus que realmente importam são a Copa Libertadores e o Campeonato Brasileiro, é agregado um valor menor a Copa do Brasil – por vezes tratada até mesmo como um prêmio de consolação – e os demais torneios são considerados insatisfatórios. E de fato é importante saber que cada campeonato tem uma grandeza particular, pois cada um deles proporciona premiações financeiras distintas e capacidades de aumentar a relevância nacional e intencional diferentes. Entretanto é igualmente importante ter em mente que conquistar um troféu, seja ele qual for, nunca tem uma importância pré-dedinida e estratificada, pois a real importância não depende de um suposto valor intrínseco que cada título carrega consigo, mas, sim, das particularidades da história e do momento atual de cada clube e torcida.

Fluminense e a temporada dos sonhos!

Ao olharmos para os principais eventos da temporada de 2023 do Fluminense não ficam dúvidas de que é o tom onírico que impera sob qualquer outra sensação.



Antes do início da temporada de 2023, não era difícil de imaginar que esse ano, diferentemente do que ocorria no início dos anos anteriores, poderia ser no mínimo satisfatório para o Fluminense, isso porque a temporada de 2022 deixou sinais consistentes para termos essa sensação – a facilidade com que o estilo de jogo do técnico Fernando Diniz conseguiu ser compreendido e aplicado pelos seus comandados, ter ficado na terceira colocação no Campeonato Brasileiro e vencido o Campeonato Carioca, ainda sob a tutela do treinador Abel Braga, eram os principais fatores que contribuíam para isso. Mas algo ainda nos impedia de imaginar que o clube das laranjeiras poderia disputar as principais competições com chances reais de conquista – a disparidade financeira que existia, e ainda existe, entre ele e as principais potências futebolísticas do país.

É bem verdade que o Fluminense teve um ano animador em 2022 sob as mesmas condições financeiras que estão vigentes atualmente – o clube estava longe de ter uma das maiores folhas salariais entre as principais equipes do Brasil e ainda mais longe de ter sido um dos que mais investiu em contratações. E a manutenção desse cenário parecia que iria fazer com que Flamengo e Palmeiras dominassem, como de costume no último lustro, os certamentes mais importantes do país. Mas, com a temporada de 2023 do futebol brasileiro tendo chegado ao fim, não há como negar que a equipe tricolor contrariou as expectativas e venceu com todos os méritos o certame estadual – aplicando impiedosos 4 a 1 no Flamengo na finalíssima, após ter perdido o primeiro jogo da decisão por 2 a 0 – e, pala primeira vez na história do clube, a Copa Libertadores, frente ao Boca Juniors, em pleno Maracanã.

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É também importante lembrar que mesmo na temporada mais icônica da história do Fluminense, nem tudo foram flores. A equipe tricolor teve períodos de oscilação ao longo do ano e sofreu algumas derrotas em que o adversário mostrou-se bastante superior. Mas até no revés que pode ser considerado o mais marcante da temporada – os 4 a 0 frente ao Manchester City, na final do Mundial de Clubes – Diniz e seus comandados em nenhum momento deixaram de tentar atuar à sua própria maneira, além de terem conseguido dominar, por alguns minutos, o adversário e expor ao mundo o particular estilo de jogo que os fizeram disputar uma competição de caráter intercontinental – aspectos que assumem um grau de relevância importante quando consideramos a esmagadora diferença financeira e técnica entre o clube brasileiro e o inglês.

Apesar dos poucos pesares ao longo do ano, nada será mais marcante para o torcedor tricolor que acompanhou o Fluminense nesta temporada do que os mágicos momentos vividos pelo clube. Momentos tão inesquecíveis que dispensam até mesmo qualquer contextualização para serem não apenas lembrados, como também sentidos pela torcida. Seja quando Marcelo driblou um punhado de jogadores rubro-negros e abriu o caminho para a goleada histórica, ou quando o placar de 5 a 1 contra o River Plate serviu como prova cabal de que 2023 reservava algo grandioso para a agremiação; ainda mais memorável quando a canção ‘Tá escrito’ prenunciou o milagre do Beira-Rio; e é claro que todo tricolor, vivo ou morto, nunca vai esquecer de quando Keno ajeitou de cabeça para John Kennedy disparar um chute onírico e exorcizar os fantasmas de 2008, pintando o continente de verde, branco e grená.

Fernando Diniz e o seu compromisso com o prazer!

É impossível ser indiferente a Fernando Diniz – o atual comandante do Fluminense vem despertando amor ou ódio em quem acompanha o futebol brasileiro desde a última década. As idiossincrasias do técnico podem ajudar a explicar essas antagônicas emoções que ele desperta nas pessoas.



Fernando Diniz é um técnico que divide de forma quase que antagônica a opinião do público geral – existem os que o amam e os que o odeiam. Não é exatamente que amem ou odeiem o ser humano Fernando Diniz; o que de fato divide as opiniões a cerca do comandante é o que ele representa enquanto treinador de futebol. Odiando ou amando, fato é que ninguém é indiferente a Diniz – o que é algo no mínimo intrigante. Isso porque, em primeira análise, não é fácil entender por que um técnico que está há relativamente pouco tempo no futebol de elite nacional e que nunca conquistou nem sequer um título relevante em sua carreira desperta sentimentos tão fortes em quem acompanha o Jogo no Brasil.

Algumas questões podem ajudar a explicar o certo fascínio, para o bem e para o mal, que existe sobre a figura de Fernando Diniz. Mas, antes de mais nada, precisamos entender o que o treinador representa. Diniz – em termos bem gerais e subjetivos – simboliza o resgate do “futebol-arte”, do “futebol bem-jogado”, da “verdadeira essência do futebol brasileiro”, em uma época em que a sensação é a de que o futebol nacional caminha na direção contrária disso tudo. E é justamente essa ideia de que Diniz é um técnico diferente da esmagadora maioria dos outros de nosso país, o represente do Jogo que encanta, que faz com que ele goze de um apreço até sentimental de torcedores Brasil afora.

Para além do grande apreço que tem de muitos torcedores, o treinador também tem uma relação afetuosa com muitos dos atletas que treinou ao longo de sua carreira. O que pode ajudar a justificar tal relação é confiança que Diniz – psicólogo por formação – passa aos seus atletas nos jogos e treinos, além de sua notável capacidade de potencializar e aumentar as valências de diversos jogadores – da periferia à elite do futebol nacional. Acredito, entretanto, que – acima de tudo – tanto para os torcedores quanto para os jogadores o que mais cria apreço a Diniz é o compromisso – que talvez nem tenha sido firmado de forma totalmente deliberada – que ele tem com o prazer. Aos torcedores, Diniz proporciona o prazer de assitir futebol, aos atletas, o prazer de jogar.

Mas por que Diniz – mesmo sendo o técnico que atualmente mais representa ideias bastantes caras a muitos torcedores brasileiros – tem uma grande rejeição de uma parcela considerável deste grupo? A resposta para essa pergunta talvez não seja surpreendente – pelo menos não para quem observa as características gerais dos adeptos brasileiros. O torcedor de nosso país, via de regra, é um ser que até valoriza coisas como o estilo de jogo ofensivo, propositivo e encantador, mas não há nada que valorize mais do que títulos. O fato de muitas pessoas enxergarem no estilo de jogo de Diniz um “alto risco” de execução também é um fator que contribui para a sua rejeição, nada, porém, é mais determinante do que o fato dele nunca ter conquistado um troféu de grande relevância.

Algumas questões podem ser apontados para tentar explicar os motivos da ausência de títulos no currículo de Diniz. Porém a ideia de que o técnico não conquistou troféus relevantes porque ainda não fez nenhum trabalho bom em sua carreira não pode – em hipótese alguma – ser apontada como um fator. Primeiramente, porque o técnico de fato tem bons trabalhos em sua trajetória à beira dos gramados, e, em segundo plano, também porque, como sabemos – ou pelo menos deveríamos saber –, nem todo bom trabalho resulta em título e nem todo título é resultado de um bom trabalho. E antes de relembramos toda a trajetória do comandante é necessário dizer que todos os seus trabalhos podem devem ser analisados com uma profundidade maior do que a presente neste texto.

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Pois bem, Diniz iniciou sua carreira como técnico em 2009. E desse ano até meados da temporada de 2017, ele comandou clubes de pouca expressão nacional: Votoraty, Paulista, Botafogo de Ribeirão Preto, Atlético Sorocaba, Paraná e Audax. Nessa fase de sua carreira, Diniz conquistou um Campeonato Paulista – Série A3 e duas Copas Paulista – títulos importantes para o cenário futebolístico em que estava inserido, longes, entretanto, de serem relevantes no cenário da elite nacional. Ao longo desse período, o treinador acumulou prestígio com trabalhos em que desenvolveu as valências técnicas de diversos atletas – de diferentes idades, posições e características – e fez suas equipes performarem em alto nível, muitas vezes em um nível acima do que a qualidade dos elencos sugeriam.

O início da caminhada de Diniz em clubes de maior expressão nacional começa no Athletico-PR, em 2018. A expectativa era grande para o primeiro trabalho do técnico na elite do futebol brasileiro, mas o trabalho durou apenas seis meses. No início da temporada seguinte, Diniz assume o cargo técnico do Fluminense – a passagem do treinador no clube carioca dura até meados de agosto. Pode ser considerada a série de resultados ruins no Campeonato Brasileiro o principal motivo do encerramento desses dois trabalhos. Ainda no final de 2019, o comandante assinou com o São Paulo – o trabalho durou cerca de dezessete meses e passou longe de ter sido ruim, mas a queda acentuada de rendimento na reta final do campeonato nacional de 2021 marcou mais a passagem do que qualquer outra coisa. Santos e Vasco foram os clubes que Diniz assumiu na temporada de 2021 – as duas passagens somadas duraram cerca de seis meses e tiveram o curto tempo de duração como grande marca.

Esses trabalhos – a despeito de suas inúmeras particularidades – tiveram roteiros no mínimo similares: um início animador, em que bons resultados e o estilo de jogo vistoso empolgavam, mas que com o passar do tempo os problemas táticos apareciam – principalmente no setor defensivo – e causavam maus resultados e períodos de oscilação, aos quais Diniz não resistia por muito tempo e acabava sendo demitido. O melhor trabalho do treinador, e o que mais foge dos principais esteriótipos postos sob ele, é o atual. Diniz iniciou sua segunda passagem pelo Fluminense no final de abril de 2022- rapidamente o técnico implementou o seu estilo de jogo e com uma equipe segura defensivamente e de entrosamento coletivo destacável chegou às semifinais da Copa do Brasil e terminou o Campeonato Brasileiro na terceira colocação.

O grande desafio de Fernando Diniz nesse ano de 2023 é justamente o grande desafio de sua carreira até o momento – conquistar um título de relevância. O início desta temporada mostra – apesar da amostragem pequena de partidas e do baixo nível técnico da grande maioria dos adversários – que o técnico está no caminho para aprimorar, utilizando-se dos reforços trazidos pelo clube e do maior tempo de implementação de suas ideias no elenco, o trabalho iniciado no ano passado, o que aumenta as chances de sua equipe conquistar um título nesta temporada. E o desafio de todos nós é o de tentar fazer com que o fato de Diniz ser um técnico diferente dos demais não faça com que as nossas análises sobre o seu trabalho sejam totalmente desviadas, para o lado positivo ou negativo, dos, por assim dizer, melhores padrões de análises estabelecidos no futebol brasileiro.