Ensaio – O que é Espírito do Tempo do Futebol?

Todos aqueles que de alguma forma acompanham o futebol possuem suas próprias opiniões em relação aos assuntos que envolvem o Jogo. Porém existem evidências de que algo influencia não somente as opiniões sobre o esporte bretão, mas também as análises e debates. Trata-se do ETF – Espírito do Tempo do Futebol.



Zeitgeist – em uma tradução mais apurada: Espírito do Tempo – é um termo alemão, introduzido inicialmente pelo escritor Johann Gottfried von Herder, para designar o que seria o “espírito da época” ou “sinal dos tempos”. Em uma definição mais aprofundada: o conjunto do clima intelectual e cultural do mundo, numa certa época, ou as características genéricas e subjetivas de um determinado período de tempo. O conceito reforça a ideia de que existe um clima cultural e intelectual que permeia toda a atmosfera global.

O Futebol – logicamente – encontra-se dentro de nossa sociedade e, logo, está suscetível às determinações genéricas e subjetivas do Espírito do Tempo de nossa época. Porém, por ser um meio com inúmeras categorias de análise específicas e diversas outras particularidades, o Futebol tem o seu próprio Espírito do Tempo. No universo do Esporte, o termo designa – grosso modo – os conceitos, as idéias e maneiras de performar que gozam de maior aceitação e prestígio entre aqueles que integram tal universo.

O Espírito do Tempo do Futebol é relativamente dinâmico, no sentido de que – por ser uma construção histórica, e não transcendental -, ao mesmo tempo que revela-nos as tendências de maior dominância entre os agentes da vanguarda do Jogo – principais técnicos e coordenadores técnicos, além dos mais influentes Jornalistas/Comentaristas – ele também muda de acordo com os movimentos destes mesmos agentes. Em resumo, uma parcela daqueles que são influenciados pelo ETF também interferem na constituição dele próprio.

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Não é novidade para aqueles que acompanham com regularidade o futebol nacional e internacional que atualmente existe um clima contagiante de clamor por alguns aspectos do Jogo, por exemplo, proposição, posse de bola, plasticidade e vistosidade. A grande mídia esportiva – entre outros agentes – dizem dia após dia o que é “Futebol bem jogado”, “A essência do Jogo” e – por vezes – o que é válido ou não em termos de forma de performar. O papel de tal aparelho – o principal responsável pela formação da opinião das grandes massas de torcedores – é fundamental para a consolidação e reprodução do que compõem o Espírito do Tempo do Futebol.

Note: a atmosfera de cobrança criada pelo ETF é tão grande que quando uma equipe não apresenta as características “certas” – ainda que conquiste títulos ou outros objetivo esportivos – ela é vista como não tendo atingido seu potencial máximo. Em síntese, o Espírito do Tempo do Futebol – entre outras variadas implicações – deturpa nossa visão sobre o Jogo, transporta nossos anseios do âmbito do gosto pessoal para o âmbito coletivo, põem o caráter de verdade transcendental e absoluta em subjetividades, e, por negar tolerância à pluralidade de ideias, impede a realização da análise e do debate concreto.

É importantíssimo dizer que este escrito tem o caráter de ensaio – o tema necessita de um desenvolvimento mais amplo e minucioso. Não é uma tarefa simples definir precisamente o conceito de Espírito do Tempo do Futebol e visualizar com nitidez sua mecânica de funcionamento na realidade. Para realizar tal tarefa, é preciso ir em direção à fronteira do conhecimento sobre o Jogo – algo complexo em qualquer área. Outrossim, é necessário uma capacidade de abstração – na acepção filosófica do termo – não desprezível para alcançarmos um patamar mais elevado de domínio em relação ao “sujeito oculto” que interfere na estrutura do futebol brasileiro e mundial.

Voltaremos a discutir o assunto, camaradas!